Contos
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Prólogo – A caminho da Ilha
Eu abri os olhos sobressaltada, enquanto meu marido me sacudia nervosamente pelo ombro e falava apressadamente:
– Acorde, Lorenza! Rápido!
– O que houve? – Confusa, sentei na cama. Ainda era de madrugada e uma chuva torrencial caía do lado de fora da janela. Olhei-o, enquanto ele jogava minhas roupas de qualquer jeito dentro de uma mala. – Thiago?
– Temos que sair daqui. Ir embora rápido!
Thiago estava nervoso. Despertei de vez, preocupada.
– Por quê?
– Querem me matar. Rápido, Lorenza!
– Meu Deus! – Levantei, assustada, sem entender nada. – Quem quer te matar, Thiago? Por quê?
– Depois eu te explico! Agora me ajude, droga! Temos que sair daqui logo. Se me pegam aqui, vão te matar também. Pegue suas coisas logo.
– Mas… – Eu o olhei, com medo, sem saber ao certo o que estava acontecendo. – Vamos pra onde?
– Pro sul. Temos que sumir um tempo. Meu primo mora numa ilha segura e vai nos receber. Ficaremos bem lá.
– Thiago, meu trabalho e…
– Esqueça tudo, Lorenza! – Ele virou-se para mim, pálido e nervoso. – Desculpe, meu bem, mas o caso é sério. Prometo que vai dar tudo certo. Agora preciso que me ajude. Teremos tempo para explicações depois. Certo?
Só pude concordar com a cabeça. Thiago era meu marido, cuidava de mim e eu devia confiar nele. Mas olhei em volta e senti lágrimas nos olhos. Teria que deixar meu lar, o primeiro que eu tinha de verdade. Por quanto tempo mais eu levaria aquela vida insegura, quando tudo o que sempre desejei foi segurança e um lar?
Episódio 1 – O feudo de Augusto Montês
Eu nunca tinha ouvido falar naquela ilha e fiquei surpresa por ser maior do que eu supunha, com várias casas, um grande centro comercial e cercada por imensas fazendas. Em um sítio pequeno, morava Roberto, primo mais velho de Thiago. Ele havia nos recebido no porto e agora estávamos na casa dele, onde ficaríamos por algum tempo.
Calada, eu estava sentada em um velho sofá na sala um tanto empoeirada, enquanto os dois primos conversavam e Roberto explicava como as coisas funcionavam na ilha. Cansada, apenas prestava atenção no que era dito.
– Nada acontece aqui sem que os Montês não saibam, Thiago. Eles são donos da ilha há séculos, uma família rica e poderosa que tomam conta da ilha como verdadeiros senhores feudais. E possuem familiares poderosos fora daqui também, na política, na polícia, em grandes empresas. Se quiser ficar aqui por um tempo, tudo bem. Posso falar com eles e até te conseguir um emprego, mas eles vão vasculhar a sua vida. Vão querer saber tudo sobre você.
– Que loucura! Em que século essa gente vive? – Thiago reclamou.
– É assim que eles mantêm a ordem por aqui. É uma ilha boa para se viver, desde que você obedeça às regras. – Roberto me lançou um olhar e depois fitou o primo, meio incomodado. – Escutem, demorei muito tempo para conseguir a confiança dos Montês. Agora trabalho na fazenda deles, consegui meu próprio sítio e levo uma vida boa aqui. Estou recebendo vocês numa boa, são da família, mas aviso desde já que ou você se enquadra nas leis da ilha ou cai fora. Não vou me prejudicar por sua causa ou me sujar com os meus patrões se vocês se meterem em encrencas.
– Que é isso, cara? – Thiago riu, com seu jeito alegra e brincalhão. – Não vou te prejudicar! As coisas não deram muito certo no Rio, mas não foi minha culpa! Só me defendi!
– Tudo bem. Só estou esclarecendo as coisas. Vou falar de vocês pro senhor Montês e com certeza ele vai querer falar com você logo, Thiago.
– Certo, certo. É até bom. Quem sabe ele não tem um trabalho pra mim?
– Trabalho nunca falta por aqui. – Roberto me olhou de novo, meio sem graça. – Inclusive para a sua esposa.
Eles continuaram a conversar, mas eu me desliguei do assunto, ainda preocupada com a fuga dos últimos dias até chegar ali. Estava cansada, sem dormir direito e sem saber se estávamos em segurança. Ou o que nos esperava naquela ilha misteriosa.
Thiago ainda não me explicara direito o que acontecera no Rio de Janeiro. Segundo ele, foi acusado injustamente de roubo no Bingo clandestino em que trabalhava e os donos do local, gente perigosa, resolveram acabar com ele como vingança. Ele disse que não tinha nada a ver com o roubo e que foi tudo armação de um colega dele, o verdadeiro culpado. De qualquer forma, estávamos fugidos. E se os donos do Bingo o achassem, seria o seu fim. Eu nunca o quis trabalhando naquele lugar, mas Thiago não me dava ouvidos.
Apesar de estarmos casados apenas dois anos, eu já sabia que Thiago vivia se metendo em confusão. Com seu jeito extrovertido e esperto, conseguia emprego fácil e fazia muitos amigos, mas também sempre era mandado embora com a mesma facilidade. Nunca se incomodava ou se preocupava com o futuro. Para ele a vida era uma aventura e um dia ele se daria bem.
Eu pensava diferente. Queria um lar, uma família, segurança e paz. Fui criada por uma mãe solteira que vivia se mudando de um lugar para outro e me carregando junto. Tive vários padrastos, várias casas e diversos problemas. Por último ela fora morar com um cara que vivia dando em cima de mim e ela acabou morrendo em um acidente de carro, quando os dois vinham bêbados de uma festa. Ele se machucou pouco e eu sabia que, assim que saísse do hospital, ia exigir direitos sobre mim.
Naquela época eu conheci Thiago, de passagem pela cidade, e me apaixonei por ele. Tinha acabado de fazer dezoito anos. Ele me consolou da morte de minha mãe e, sabendo que eu temia meu padrasto, me fez uma proposta surpreendente: casamento. Nos casamos e, antes que meu padrasto saísse do hospital, fui embora com ele. Isso tinha sido há dois anos.
Eu sentia que ainda não havia parado de pular de um lugar para outro. Thiago era tão impaciente e aventureiro como minha mãe. Estava cada vez mais cansada daquela vida incerta e das confusões que ele se metia. Às vezes tinha vontade de me separar e viver sozinha e em paz. Sentia vontade de chorar por tudo o que eu tivera de deixar para trás com aquela fuga. Meu trabalho, meu curso supletivo à noite, os objetos que eu comprara com carinho para a casa, os amigos e vizinhos com os quais eu havia começado a me acostumar.
Em questão de dias, Thiago conseguiu um emprego na fazenda em que o primo trabalhava e eu comecei a trabalhar como garçonete no maior restaurante dançante da Ilha, chamado Casa da Tia. Fiquei animada, apesar de trabalhar à noite e de não parar um segundo. Mas meu marido não parou de reclamar do novo patrão, que acusou ser desconfiado, frio, um ditador. Roberto esclareceu:
– Ele é assim mesmo. Avisei que o negócio aqui não é fácil. Ele e os irmãos mantêm a ilha com mãos de ferro. Fazem justiça com as próprias mãos. Todo mundo sabe e obedece, pois em troca tem trabalho, segurança e uma vida boa. Pra viver aqui tem que se enquadrar.
– Não aguento muito tempo aqui não, cara. Agradeço por você nos receber, mas vamos ficar só até as coisas se acalmarem lá no Rio. Depois a gente cai fora.
Fiquei quieta, apesar de sentir vontade de dizer que estava cansada de mudar. Eu já reclamara antes, mas ele sempre garantia que, quando se desse bem na vida e arranjasse um bom emprego, a gente ia sossegar.
Disse a mim mesma para não me acostumar com aquele lugar. Era passageiro, temporário. Seria mais fácil quando tivesse que ir embora.
Uma semana se passou e as coisas se acomodaram. Thiago ia para o trabalho na fazenda com Roberto e, apesar de reclamar do trabalho duro, conquistou vários colegas com seu jeito alegre e extrovertido. Gostava de ser o centro das atenções e de se divertir. Assim, no final de semana foi para o restaurante em que eu trabalhava com vários colegas novos da fazenda e com o primo. Me apresentou cheio de orgulho, riu, bebeu, contou piadas. Todos pareciam se divertir com ele. Depois voltou para casa comigo, bêbado demais.
No sábado ele ficou de aparecer de novo lá com seus novos amigos. Já passava das nove horas da noite, o lugar enchia, mas ele ainda não tinha chegado. Foi naquele momento que um grupo ocupou a melhor mesa do restaurante, que Rosa, a garçonete com quem fiz amizade, me dissera que era especialmente guardada para os Montês. Em meio à afobação do trabalho, olhei curiosa para as pessoas que sentavam à mesa.  Eu já ouvira falar muito da família que era dona da ilha, mas ainda não tinha visto nenhuma pessoa que fizesse parte dela.
– São os Montês? – Perguntei baixinho à Rosa, parando um momento ao seu lado.
– Só têm três Montês, os irmãos. Os outros são amigos e amigas. – Ela sorriu  e piscou o olho. – Eles sempre estão com amigas, se você me entende.
Sorri de volta. Eram seis homens e quatro mulheres. Logo um dos homens chamou minha atenção. Segurei o fôlego ao olhar para ele.
Era lindo. Alto, esguio, mas musculoso, parecia enorme, com talvez um metro e noventa de altura. Seus ombros eram bem largos e ele se destacava pela compleição dominante e pela beleza incrivelmente viril de seu rosto.
Enquanto tirava os restos de comida de uma mesa, não resisti a olhá-lo melhor. Devia ter uns trinta e poucos anos e seus cabelos eram muito negros, curtos e abundantes. Enquanto se sentava, ele olhava em volta de maneira fria e atenta, sem sorrir. Era duro, com rosto anguloso, maçãs do rosto altas, nariz afilado e queixo firme. Seu maxilar era prepotente, forte, incrivelmente másculo. A boca era carnuda, sensual, com um formato ligeiramente cruel. Sobrancelhas negras marcavam olhos intensos e atentos, que de onde eu estava não dava para ver de que cor eram.
Pensei que ele devia ser um homem autoritário, duro, acostumado que o obedecessem sem vacilar. Senti-me estranhamente afetada por ele, por sua beleza diferente e rústica, pela sensualidade masculina que ele exalava e pela agressividade controlada sob a aparência rica e civilizada. Desviei o olhar, surpresa por me sentir um pouco trêmula e amedrontada por ele. Era um homem que devia ser temido e evitado. E era isso que eu faria.
Tive certeza de que ele foi o Montês que entrevistara Toni e do qual ele reclamara ser desconfiado, quase cruel. Rezei para que Toni tivesse percebido que aquele não era um homem para brincadeiras e que se comportasse bem no trabalho. Não seria fácil enfrentá-lo. Ainda mais sendo um dos senhores absolutos daquela ilha. As irresponsabilidades de Toni com certeza não seriam toleradas por ele.
Augusto Montês tomou um gole de sua cerveja gelada, sem prestar muita atenção na farra que seu irmão de vinte e quatro anos e seus amigos da capital faziam na mesa. Estava um pouco entediado e noitadas não eram seu passatempo predileto, mas gostava de aparecer de vez em quando por ali e encontrar os conhecidos. Naquela noite em especial, além de fazer companhia aos irmãos e aos amigos de Lucas, estava ali por outro motivo. Conhecer a mulher do forasteiro do Rio de Janeiro.
Nenhum estranho passava a viver na ilha sem mais nem menos. O casal já estava sendo investigado por seus contatos da capital, mas ele já formara uma opinião sobre Thiago Prado, que estava trabalhando em sua fazenda sob vigilância. Era um golpista de primeira, apesar de parecer jovem e inofensivo. Tinha certeza que ele traria problemas. Teria que evitar isso.
Soubera que a jovem esposa dele era garçonete ali. Queria tirar suas próprias conclusões sobre ela.
– Ali está ela. – Mário comentou ao seu lado.
Augusto seguiu a direção do olhar do irmão. A moça pequena e esguia equilibrava uma bandeja lotada de comida entre as mesas cheias, como se tivesse passado a vida fazendo aquilo. Com o uniforme e o boné, parecia uma moça comum e qualquer, quase uma criança. Mas ele nunca era superficial ou se deixava levar pela primeira impressão. Assim, observou-a atentamente.
Não devia chegar a ter um metro e sessenta de altura. Era magra e branca. De longe, aparentava ter uns dezessete anos e não vinte. Apesar de esguia, o jeans justo marcava quadris arredondados e um traseiro em forma de coração, bem feminino. Suas costas eram eretas e o rabo-de-cavalo chegava até quase a cintura, cheio e liso. A cor era de um loiro bem claro.
Ela começou a servir uma mesa, sorrindo amavelmente para a família barulhenta ali. Tinha um belo sorriso, com covinhas nas faces e dentes brancos. O rosto, pelo que se podia ver sob a aba do boné, era belo, com nariz pequeno e olhos grandes. Algo nela era encantador, feminino, sedutor, ao mesmo tempo inocente. Augusto sentiu-se imediatamente atraído por ela, apesar de não ser o seu tipo. Isso o deixou completamente alerta, sem desviar os olhos dela.
Parecia muito jovem e pequena, o que nunca o atraía. Lucas costumava levar suas colegas em casa, jovens aventureiras, lindas, atiradas, que sempre davam um jeito de se oferecerem ao irmão mais velho do colega e mostrarem seu interesse. Augusto não era de expulsá-las de sua cama, mas também não era afetados por elas. Por isso, não gostou de sentir-se atraído por aquela garçonete, que ainda por cima era casada com aquele golpista. Deviam ser dois espertos, acostumados a enganar as pessoas com jovialidade e simpatia, até darem seus golpes e partirem para outra.
– É bonita. – Disse Mário.
Augusto não deu opinião. Ela afastou-se com a bandeja vazia. Ele levantou-se, sabendo que o toalete ficava num corredor perto da cozinha. Teria que passar por ela. Dirigiu-se para lá.
Ela estava apoiada no balcão, de costas para ele, esperando seu pedido. Era ainda menor de perto, mal chegando com o topo da cabeça na altura de seu ombro. O corpo esguio era perfeito, com cintura bem fina e uma bunda arredondada, empinada e firme. Os fios do cabelo loiríssimo brilhavam caindo sobre o tecido vermelho da blusa.
Augusto irritou-se ao sentir o corpo reagir a ela, muito consciente de suas formas femininas. Indagou com brusquidão:
– Lorenza Prado?
Notou imediatamente a tensão nela, que se enrijeceu. Como um robô, ela voltou-se devagar e ergueu o rosto para poder fitá-lo. Parecia nervosa, talvez até um pouco assustada, o que o deixou ainda mais desconfiado. Ao mesmo tempo foi afetado por sua beleza. Ela era muito mais bonita do que percebera ao longe. Sua pele era perfeita, assim como seus traços delicados. A boca era rosada, com lábios carnudos ligeiramente abertos no centro, como se fizesse biquinho. Aquela boca era um traço quase sexual em meio à doçura de seu rosto.
Ela tinha olhos enormes, de um verde claro reluzente, cristalino. Mas o olhou como se o temesse, como se tentasse disfarçar algo. Não estava à vontade. Pelo contrário, parecia prestes a sair correndo dali. Muito sério, sem deixar de encará-la um segundo sequer, ele estendeu-lhe a mão:
– Augusto Montês.
Ela vacilou um pouco e olhou rapidamente para sua mão. Por fim a apertou rapidamente, mas o bastante para sentir que estava trêmula. Forçou um sorriso:
– É um prazer conhecê-lo, senhor Montês.
– Seja bem-vinda à ilha.
– Obrigada. – Seus lábios também tremeram e ela os mordeu nervosamente.
Ele sentiu que uma corrente elétrica parecia estalar entre eles e observou-a mais atentamente. Ambos estavam tensos, mas ela quase parecia temê-lo, o que era estranho. Talvez estivesse tramando algo com o marido e com medo que fossem descobertos.
– Espero que você e seu marido gostem da ilha e resolvam ficar. – Comentou friamente. – Aqui somos como uma grande família. Pessoas honestas são sempre bem-vindas.
Ela concordou com a cabeça, sem coragem de olhá-lo nos olhos. Naquele momento o rapaz da cozinha chamou-a, avisando que o pedido estava pronto, e ela pareceu aliviada com a interrupção.
– Desculpe, senhor Montês, mas eu…
– Foi um prazer. – Ele moveu de leve a cabeça e afastou-se.
Eu me voltei para o balcão, tremendo. Segurei a bandeja sobre a madeira, respirando fundo para me acalmar antes de equilibrá-la. Sentia como se tivesse saído de uma batalha, todo meu corpo agitado, minha respiração entrecortada e minha mente confusa. Nunca havia me sentido assim, tão desnorteada e afetada pela presença de uma pessoa. Desde o momento que ouvi aquela voz grossa e dura atrás de mim, soube que era dele e me senti estranhamente nervosa. Vê-lo de  perto, então, me descontrolou. Até agora eu não entendia o que tinha acontecido.
Ainda me sentia afetada, acossada, ameaçada. Sua presença dominadora, aqueles penetrantes e intensos olhos castanhos-dourados e sua voz fria me deixaram sem conseguir até pensar. Mas notei que algo nele era muito ameaçador, como se deixasse claro, sem palavras, que estava de olho em mim. Como se a qualquer momento eu fosse cometer um crime e ele estaria em cima para me pegar.
Senti-me boba com aqueles pensamentos desconexos, mas a impressão era forte demais. Não era à toa que aquele homem parecia um senhor feudal ali. Nada escapava a ele. Tinha olhos de águia e uma desconfiança natural. Novamente tive medo que Thiago, com sua irresponsabilidade, desgostasse aquele homem. Ele faria picadinho da gente.
Mas junto com o medo, a sensação de ameaça era também física. Tive vergonha de mim mesma ao notar que nunca fui tão consciente de um homem e nem me senti tão atraída. Deus do céu, eu era casada! Como pudera me sentir daquele jeito por Augusto Montês? O que era aquilo?
Nervosa, procurei me controlar e voltei ao trabalho. Evitei ao máximo o local onde ele estava, mas senti seu olhar por toda noite. Não sabia se ele realmente me olhava ou se fora só a impressão forte que me causara, mas passei a noite toda tensa, forçando sorrisos, afetada e confusa. Por fim, a sensação diminuiu e eu soube que ele havia ido embora. Mas então, eu já estava emocionalmente exausta.
Episódio 2 – O cativeiro de Lorenza
Havíamos recebido nosso primeiro salário ali e era meu dia de folga no restaurante. Por coincidência, teria uma festa na cidade, dia do santo padroeiro da ilha. Barraquinhas, parques e quermesses foram montadas para a ocasião. Thiago insistiu para que fôssemos. Eu, ele e Roberto partimos para lá em sua caminhonete.
Todas as pessoas da ilha pareciam estar na festa. Eu já conhecia várias do restaurante e acabei parando para rir e conversar com as pessoas. Brincamos de tiro ao alvo, andamos de roda gigante e comemos pipoca. Logo encontramos com vários empregados da fazenda e Thiago e Roberto ficaram no meio deles. Eram só homens e não me senti muito à vontade. No meio dos amigos, Toni quis chamar atenção contando piadas e brincando com todos. Compravam cerveja, rindo, até que me afastei e ele nem notou. Circulei pela feira, mas ainda estava chateada com o comportamento de Toni. Começava a me cansar de sua mania de querer ser o mais engraçado, de se divertir sem limites e de beber até perder o juízo.
Comprei algodão doce em uma barraca e fiquei observando as crianças brincando de pescaria. Estava ali, quase terminando de comer, quando com minha visão lateral um homem alto chamou minha atenção. Olhei-o imediatamente, com o coração acelerando sem controle no peito. Era ele.
Augusto Montês estava a poucos metros de mim, em outra barraca. Sem me controlar, olhei-o todo, com uma sensação estranha de júbilo, nervosismo e saudade. Era loucura, eu sabia. Mas eu não conseguia evitar.
Usando jeans, botas e uma camisa branca com punhos dobrados, ele parecia ainda mais impressionante, como se fosse possível.  Sua presença marcante tornava tudo fosco a sua volta. Alto e poderoso, ele atraía o olhar como um ímã. Cheguei a ficar sem ar.
Uma mulher alta, esguia e linda o acompanhava. Morena, possuía longos cabelos escuros e usava jeans pretos colados em suas curvas exuberantes. Eles formavam um casal impressionante. E ela parecia muito feliz em sua companhia, segurando seu braço, sussurrando algo em seu ouvido.
Dei-lhes as costas e me afastei, com raiva de mim mesma. O que estava acontecendo? Por que me sentia tão abalada? Por que aquele homem não saía da minha cabeça? Sentia vontade de chorar de frustração, por não conseguir me controlar.
Procurei Thiago. Roberto não estava mais ali, mas ele continuava bebendo com os colegas, todos animados. Vários rapazes lançaram olhares desejosos para mim, mas fingi não notar e pedi a Toni para ir embora. É claro, ele não quis. Aliás, se percebeu o modo que os amigos me olhavam, não se incomodou. Parecia orgulhoso e me puxou para seus braços, dizendo aos colegas:
– Ela não consegue ficar longe de mim.
Irritada, tentei me soltar, mas ele me puxou pela cintura e beijou meu pescoço de forma erótica, querendo dar um show. Eu o empurrei, com vontade de xingá-lo. Como não valia à pena, afastei-me dele. Ia procurar Roberto e pedir para ele me levar para casa.
Olhei em volta mas não vi Roberto em lugar nenhum. Frustrada, parei perto da roda gigante. Tinha vontade de sumir. Para me acalmar, fiquei observando o brinquedo girar, ouvindo as risadas das pessoas.
– Você não está se divertindo.
Gelei ao ouvir aquela voz grossa, dura. Tensa, senti-o ao meu lado. Prendi o ar antes de me virar um pouco e fitar seus olhos dourados e intensos, com pálpebras pesadas. Era muito alto e tive que erguer a cabeça.
– Oi. – Foi tudo o que consegui dizer, tentando controlar meu corpo abrasado e minhas emoções confusas.
– Seu marido parece estar se divertindo bastante.
– Ele adora festas.
– Percebi.
Olhei de novo para a roda gigante, nervosa.
– Espero que possa controlar seu marido, Lorenza.
O meu nome, em sua voz, me fez estremecer. Tentei me concentrar em suas palavras e o olhei, preocupada. Seu olhar era frio e cortante.
– O que quer dizer?
– Não quero que tragam problemas para cá.
– Mas… Não estamos fazendo nada! – Ergui o queixo, para disfarçar meu medo. – Está nos acusando de algo?
– Sei o que seu marido fez no Rio e que está sendo caçado por roubo. É um bêbado e um ladrão nato. – Sorriu sem vontade, perigosamente. – É claro que os investiguei. E estou esperando o menor deslize para alertar os homens que o estão caçando. Eles fariam todo o trabalho sujo.
Eu tremia, presa em seu olhar intenso e ameaçador.
– Se pensa assim, por que deixa que ele continue a trabalhar para você?
– Que melhor maneira de tê-lo sob meus olhos?
O vento jogou meu cabelo liso e solto em meu rosto. O olhar de Augusto seguiu a mecha que grudou em minha boca. Seus olhos escureceram na hora, tornando-se ardentes. Foi tão intenso e óbvio o desejo ali, que fiquei subitamente sem ar, abalada. Afastei o cabelo, sentindo-me presa quando seu olhar encontrou o meu. Não tive dúvidas do que ele pensava naquele momento e uma onda quente de pura luxúria me percorreu inteira.
Abalada, dei um passo para trás. Ele se tornou mais frio, mas senti uma raiva latente sob as suas palavras:
– Aqui vocês não têm para onde escapar. Não esqueça, senhora Prado. Tenha uma boa noite.
Fiquei imóvel, vendo-o se afastar.
Desesperada, percebi que eu precisava convencer Thiago a ir embora dali.
Nada do que eu disse o convenceu, bêbado e animado entre seus amigos. Cansada e furiosa, encontrei Roberto e ele me levou para casa. Tomei banho, pus uma comportada camisola rosa e tentei dormir. Mas rolei na cama, nervosa, sem conseguir afastar as ameaças de Augusto da cabeça. E sem conseguir esquecer aquele olhar dele para minha boca. Meu Deus, se tivesse oportunidade aquele homem me engoliria inteira! Eu era uma boboca perto dele, uma imbecil de vinte anos casada com um irresponsável. Foi uma noite terrível. Quando enfim consegui dormir, tive vários pesadelos.
Thiago deitou-se na cama de madrugada, fedendo a bebida, apesar do banho que tomou antes. Tentou me abraçar, mas eu o afastei com um repelão, furiosa. Fui para o canto da cama e estava quase conseguindo dormir de novo, quando barulhos na frente da casa chamaram minha atenção. Cavalos e vozes de homens. Luzes se acenderam. A porta abriu. Reconheci a voz de Roberto.
Sentei-me na cama de supetão, com o coração acelerando loucamente no peito. Havia algo errado. Um medo atroz me imobilizou. Comecei a rezar silenciosamente.
Vários passos na casa, se aproximando pelo chão de tábuas. Nervosa, só tive tempo de olhar para a porta quando esta se abriu de súbito e vários homens entraram, um deles acendendo a luz. Gritaram algo que minha mente entorpecida não registrou e um deles puxou Thiago da cama com violência. Ele acordou confuso e cambaleante, apenas de short de pijama, ainda bêbado.
Observei aquilo horrorizada, tentando me convencer de que era só um pesadelo, mas quando um dos homens segurou meu braço com força e me levantou da cama, eu vi que era real demais.
Augusto havia desmontado do seu cavalo e esperava do lado de fora da casa, junto com seu irmão Mário e mais alguns dos seus homens. Perto deles, Roberto estava amedrontado e furioso com o primo pela vergonha que o estava fazendo passar. Não ia interferir em nada.
Não demorou muito para que dois dos seus homens trouxesse Thiago pelos braços. Apesar de bêbado, ele estava consciente e assustado. Magro e apenas de short, parecia só um garoto de vinte e poucos anos. Mas seus olhos culpados, aterrorizados, desmentiam sua inocência.
A atenção de Augusto desviou-se imediatamente dele quando outro de seus empregados surgiu na varanda trazendo Lorenza pelo braço. Ela estava pálida, assustada, com os olhos verdes arregalados. Seu longo cabelo loiro espalhava-se liso por seus ombros e braços, caindo para a frente enquanto ela descia os degraus. Estava descalça e usava uma leve camisola rosa de algodão, que chegava até os joelhos. Apesar de não ser transparente, deixava entrever o formato dos seios sem sutiã e o contorno arredondado dos quadris. Suas pernas eram bem feitas. Estava linda, inocente e sensual ao mesmo tempo.
Ele ficou duro só de olhar para ela, embora naquele momento não queria ser distraído. Ela o viu e o terror em seus olhos foi bem real. Até quanto ela estaria participando das armações do marido? Por isso estava com medo?
– Senhor, o que… – Começou a dizer Thiago, implorante. Mário interrompeu-o bruscamente:
– Cale a boca, seu verme. Sabe porque estamos aqui. Só diga onde está o dinheiro.
– Mas… – Thiago olhou de Mário para Augusto, apavorado, ainda tonto. – Que dinheiro?
– Não me faça perder tempo. – Augusto olhou-o friamente. – Já esperávamos algo assim de você. Só que foi mais rápido do que eu pensava. Não se incomode em negar. Os rapazes que você convenceu a participar do crime já confessaram.
O rapaz tremia sem parar. Lorenza estava imóvel, olhando a cena como se não pudesse crer que fosse real.
– Não fiz nada. – Thiago gemeu, como um garotinho. – Os caras mentiram!
– É a última vez que pergunto: onde está o dinheiro?
Toni estremeceu ainda mais sob a voz fria de Augusto e seu olhar ameaçador.
– Juro que não sei do que você está falando!
– Traga-os. – Foi tudo o que ele disse, antes de se virar para um dos carros. Augusto parou ao ouvir Lorenza gritar:
– Não! Pare com isso!
Virou-se e a olhou. Ela tentava se soltar do capataz que a segurava. Estava nervosa, apavorada.
– Roberto, nos ajude! Por favor, Roberto!
– Tenho vergonha de ter abrigado vocês. – Foi a resposta que deu a Lorenza. Depois entrou em casa.
Thiago foi jogado dentro da caminhonete sem reação, apavorado demais para reagir. Mas Lorenza lutou com o homem que a segurava e, apesar de ser pequena e magra, deu trabalho. Ele observou o homem empurrá-la para dentro do carro e bater a porta. Só então foi para o outro carro com o irmão.
Nós fomos levados para uma espécie de cabana, entranhada na fazenda. Com as mãos amarradas para trás, fui empurrada para um sofá duro. Um homem ficou de olho em mim. Thiago foi carregado para outro quarto, acompanhado por três brutamontes e por Mário Montês. Augusto entrou na casa e parou a minha frente.
Ergui os olhos e encontrei seu olhar furioso e de desprezo. Eu queria defender Thiago, mas sabia que possivelmente ele era culpado. Tentei dizer que eu não sabia de nada, só que também sabia que ele não acreditaria. Assim, fiquei quieta, tremendo de medo.
– Vocês são dois idiotas. Acharam que iam sair impunes?
– Eu não sei o que… aconteceu. – Murmurei.
– Seu marido convenceu alguns jovens bobos e bêbados a se darem bem. Invadiram um dos barcos particulares de comerciantes que vem à ilha e que nunca foram molestados. Roubaram o lucro da transação comercial e os expulsaram com ameaças. Divertiram-se e riram, achando que eles nunca mais voltariam. Os comerciantes me procuraram assim que aportaram em meu píer particular.
Desviei o olhar, enojada por Thiago. Como ele podia ser tão burro e irresponsável? Bêbado, na certa querendo se mostrar para os outros e se dar bem, não pensou nas consequências. Ergui de novo os olhos para ele, tentando não me descontrolar.
– O que você vai fazer?
– Já devolvi o dinheiro dos comerciantes, do meu bolso. Agora vocês me devem. E pretendo cobrar cada centavo.
Estremeci sob o seu olhar frio. Dei um pulo do sofá quando Thiago gritou no outro quarto e um som de pancada se seguiu. Minha reação foi a de correr para o quarto, mas Augusto agarrou meu cabelo solto na hora e me imobilizou. Fiquei de pé a sua frente, com as mãos presas para trás, quase colada em seu corpo alto e forte. Meu couro cabeludo doeu.
– É melhor você ficar bem quietinha, Lorenza.
Sua voz gelada, com raiva velada, me encheu de medo. Olhei-o.
– Por favor, não o machuque.
– Melhor pensar em si mesma. Agora mesmo, tenho vontade de torcer seu pescoço. Não me provoque. – Irritado, ele me empurrou de volta para o sofá.
Caí sem jeito, com as mãos presas, e a camisola subiu por minhas coxas. O olhar dele fixou-se ali, escuro e cheio de luxúria, como havia acontecido perto da roda gigante na noite passada. Mal ousei respirar. Ele me encarou com raiva.
– Cuido de você depois, Lorenza.
E foi para o quarto onde estava Thiago. Comecei a chorar baixinho.
Thiago era um fracote e após uns poucos socos e algumas ameaças, confessou tudo. Chorou, pedindo perdão, enquanto contava que estava bêbado e não pensou nas consequências.  Junto com mais três rapazes da ilha, assaltaram o barco e depois expulsaram os comerciantes com ameaças. Jonas, um dos rapazes que participou do assalto, ficou encarregado de esconder o dinheiro para depois eles dividirem.
Os outros dois rapazes já estavam sob domínio, menos Jonas. Augusto saiu com alguns capatazes e, como logo ficou sabendo, seu barco sumira. Era um rapaz rebelde e aproveitou a oportunidade para fugir da ilha com o dinheiro, para um lugar onde pudesse pôr em prática suas rebeldias. Augusto se encarregou de mandar alguns homens para seguir o rastro dele. Já amanhecia quando voltou à cabana.
Lorenza o olhou, pálida e abatida, ainda sentada no sofá. Mas ele a ignorou e foi direto ao quarto. Com sangue no rosto e amarrado, Thiago estava sentado em uma cadeira, com olhos fechados. Dois capatazes sentavam-se em frente, de olho nele. Mário fumava um cigarro perto da janela aberta. Augusto disse baixo:
– Ele fugiu.
Thiago se crispou com dor e desespero. Augusto continuou friamente:
– Você está me devendo, Thiago Prado. E enquanto Jonas e meu dinheiro não forem encontrados, é você quem vai me pagar.
– Sr. Montês, não tenho dinheiro, mas prometo que…
– Cale a boca. Sei que o pessoal do bingo do Rio estão loucos atrás de você. Basta um telefonema e eles vêm aqui me livrar de você. Não terei nenhum trabalho.
Ele tremia, desesperado. Augusto olhava-o com desprezo.
– Posso te dar uma outra opção. – Percebeu seu ar esperançoso, ansioso. E soltou a bomba: – Você trabalhará na fazenda sem receber nada e sob vigilância. Dormirá num quarto vigiado até o dinheiro aparecer ou até eu julgar que a dívida foi paga. – Thiago começou a concordar na hora, mas ele continuou: – E, enquanto isso, sua mulher ficará comigo.
O rapaz ficou boquiaberto, olhando-o. O quarto estava completamente silencioso.
– Sua mulher será minha puta e você trabalhará como escravo. Isso, ou chamo os homens que estão te caçando. Quero uma resposta agora.
Thiago estava chocado, trêmulo. Por fim suplicou:
– Por favor, Lorenza não tem nada a ver com isso. Trabalho pra você, juro, mas…
– Sim ou não?
Ele abaixou a cabeça, arrasado. Concordou silenciosamente.
– Solte-o. – Augusto disse ao capataz. – Vou mandar Lorenza entrar. Explique os termos. Vamos esperar lá fora.
Mário seguiu-o. Augusto parou na sala e disse ao capataz que olhava Lorenza:
– Leve-a ao quarto e fique de olho neles.
Não olhou para Lorenza enquanto saía da casa.
Eu fiquei horrorizada ao ver Thiago machucado. Apesar da raiva que eu sentia por ele nos ter colocado naquela situação, doeu vê-lo daquele jeito.
– Por que você fez isso, Thiago? E agora?
– Lorenza. – Ele olhou nervosamente para os capangas nos cantos dos quartos. Depois me fitou de modo suplicante e falou mais baixo: – Foi uma brincadeira, querida. Eu estava bêbado, não pensei direito e …
– Chega de desculpas! Estou cansada de suas mentiras!
– Fui enganado! Um dos caras pegou o dinheiro e fugiu da ilha. Estão atrás dele, mas enquanto não o pegam, temos que pagar a dívida.
– Como? – Murmurei, cansada.
– Vou trabalhar de graça, como um escravo, vigiado.
Fiquei quieta, sentindo que não era só aquilo. Ele passou a mão no rosto e gemeu de dor.
– Augusto Montês sabe que estou fugido e ameaçou me entregar aos donos do bingo. Nós dois. Eles vão me matar, Lorenza. Vão se divertir com você e depois te matar também. Não temos escolha! Tenho que fazer o que o Montês quer!
– E eu? Vou trabalhar também de graça para ele, é isso?
Estava quase aliviada. Pelo menos havia uma chance de que aquilo não acabasse em tragédia.
– Lorenza, escute com atenção. Eu não queria concordar, mas é a única opção. – Parou perto de mim, arrasado, falando baixo: – Ele quer você.
Não entendi de imediato e franzi o cenho.
Ele suspirou.
– Augusto Montês quer que você seja amante dele.
Senti como se tivesse levado um soco no estômago. Arregalei os olhos, mal podendo respirar. Thiago falou rapidamente:
– Sei que é horrível, mas pense, meu amor. Se não concordar, os homens que estão atrás de mim vão fazer todas as maldades possíveis com você e depois vão te matar. Não tem jeito. Ao menos Montês nos deixará livres quando o dinheiro aparecer ou quando a dívida for paga. Poderemos ir embora, recomeçar nossa vida longe daqui e …
– Você concordou com isso? – Falei num fio de voz, sentindo-me uma prostituta, com nojo dele.
– Mas você não entende! Se…
– Sou sua mulher! Você está me vendendo para pagar suas dívidas, Thiago!
– Para salvar você! Estamos com a corda no pescoço, Lorenza!
Andei para trás, me afastando dele. Tremia de raiva, de medo, de decepção.
– Não vou fazer isso.
– Lorenza, ele vai chamar os caras que estão atrás de mim! Vai nos entregar pra eles de bandeja! – Ele gritou.
Parei. Senti-me subitamente exausta, sem capacidade até de pensar. As palavras dele penetraram minha mente entorpecida e vi que estava sem saída. Daquela vez Thiago fora longe demais. E eu não sabia o que fazer.
Não podia acreditar que Augusto fizera aquela proposta. Comecei a tremer só de imaginar em ser dele, em tê-lo dentro de mim, quando o único homem que tive foi Thiago. Uma mescla de medo e daquela primitiva luxúria que Augusto despertava em mim me engolfaram. Mas a raiva de ser tratada como objeto, vendida e usada por algo que não fiz, foi mais forte que tudo.
– Lorenza…
– Não se preocupe. – Olhei-o com uma fúria muda. – Quer que eu seja amante dele para pagar por seus erros? Eu serei. Mas nunca mais quero olhar para você. Quando tudo isso acabar, quero o divórcio e nunca mais te ver na vida.
– Querida, eu não queria isso. – Ele começou a chorar.
– Não fale mais comigo. Nunca mais. – Virei para o capanga que me vigiava. – Não quero mais ficar aqui.
– Lorenza…
Saí rapidamente do quarto, seguida pelo capanga. Ele informou sem emoção:
– O senhor Montês te espera lá fora.
Não parei para pensar. Ergui a cabeça e o segui para fora da casa.
O sol da manhã foi em cheio em meus olhos, cegando-me por um momento. Percebi o quanto estava cansada, arrasada. O chão de pedrinhas machucou meus pés nus e tive vontade de cair em prantos. Mas me controlei.
Augusto estava encostado no carro, sozinho, me olhando fixamente.
Sua presença ainda me afetava como nenhuma outra. Talvez até mais agora, sabendo que eu estava em suas mãos. Mas junto com a luxúria, eu o odiava. Caminhei até ele e o olhei cansadamente. Não precisei falar nada. Ele abriu a porta do carro e ordenou:
– Entre, Lorenza.
Com as mãos ainda amarradas para trás, entrei no carro. Agora eu era prisioneira dele. Mais uma posse do seu feudo.
Não ousei olhar para ele, que dirigia o carro velozmente. Queria chorar até não poder mais, fugir, sumir daquele lugar. Nunca me senti tão humilhada na vida. Mas agora não havia nada que eu pudesse fazer.
Vi um casarão de fazenda enorme, branco com telhado vermelho, surgir em uma grande área da fazenda. Ali perto se estendiam outras casas menores, talvez dos empregados. Sentei ereta no banco. Olhando fixamente para frente, perguntei baixo:
– Para onde você vai me levar?
– Com certeza não para minha casa. Lá não é lugar de puta.
Suas palavras frias e ofensivas foram quase como um golpe físico. A raiva me fez olhá-lo e dizer no mesmo tom:
– E você se acha muito melhor, não é? Um homem que compra uma mulher do próprio marido e a obriga a ser sua amante.
– Não obriguei nada. – Augusto parou o carro em frente a uma das casinhas brancas e virou-se para me olhar. Seus olhos castanhos pareciam queimar. – Dei as opções. Vocês escolheram assim.
– Não havia opções.
– Eu te avisei na festa, Lorenza. Mas você e aquele traste do seu marido estão tão acostumado a roubar e enganar as pessoas, que não pensaram nas consequências.
– Eu não fiz nada!
– Você é casada com ele. É sua cúmplice. Agora não quero ouvir mais nada. Nunca volto atrás em uma decisão. – Friamente ele saiu do carro e deu a volta. Abriu a porta bruscamente para mim e me puxou para fora pelo braço, sem nenhuma delicadeza. Eu cambaleei um pouco e logo ele me levava para a casa. – Seu novo lar, Lorenza.
Abriu a porta e me empurrou para uma sala pequena, mas arrumada. Assustei-me quando ele veio por trás de mim e segurou meu braço, mas fiquei quieta ao perceber que estava soltando a corda em meus pulsos. Então se afastou.
A dor do sangue voltar a circular e por ter ficado tanto tempo naquela posição percorreu meus braço e minhas costas. Gemi baixinho, movendo os dedos e as mãos de vagar.
Augusto olhou-a, enquanto ela movia os braços com dor. Parecia muito frágil ali, no meio da sala, descalça e com a simples camisola rosa. Seus pés pequenos estavam cheios de poeira e seu cabelo liso e muito loiro se espalhava selvagemente até quase a sua cintura. Ele sentiu um desejo quase animal de possuí-la ali, naquele momento. A luxúria por aquela mulher o consumia cada vez mais e ele odiava ficar daquele jeito, a ponto de perder o controle.
Lorenza olhou-o com falsa valentia. Seus olhos verde-claros pareciam ainda maiores no rosto abatido, cercados de olheiras. Era óbvio que tremia e que estava com medo. E muito cansada.
– Não quero que saia dessa casa. Sempre terá alguém de olho em você. Se tentar fugir, só perderá seu tempo. E terá seu castigo.
– Por quanto tempo vou ficar aqui?
– Até a dívida for paga.
– E quanto tempo demora para isso?
– Quando eu decidir.
Ela mordeu o lábio, furiosa.
– Quer dizer que sou mesmo uma prisioneira? Vou ficar o dia todo trancada aqui, até você decidir aparecer e me usar. É isso?
– Use as palavras que quiser. Mas entenda uma coisa, Lorenza: Você é sim, minha prisioneira. E vai ser obediente e fazer exatamente o que eu disser. Até quando eu quiser. Não se preocupe. – Ele lançou um olhar frio para o seu corpo. – Não acredito que vá despertar meu interesse por muito tempo.
Ela ficou quieta, pálida, apenas olhando-o.
– Um empregado trará suas coisas. Voltarei mais tarde.
Sem mais palavras, Augusto deu-lhe as costas e saiu da casa. Era melhor se acalmar um pouco. Se a possuísse daquele jeito, com certeza a machucaria.
Episódio 3 – Mais uma posse do Senhor da Ilha
A casa estava toda mobiliada. Havia água e comida na geladeira e na despensa. As paredes eram pintadas de branco. Por ironia, por mais que fosse simples, era melhor do que as casas que já morei, sempre com infiltrações, mofo ou goteiras.
Minhas coisas foram trazidas por um empregado. Já estava quase na hora do almoço quando tomei banho e fui vencida pelo cansaço. Caí na grande cama de casal angustiada, com medo, mas tão exausta que não conseguia nem chorar ou pensar direito. Dormi profundamente.
Quando acordei, já escurecia e o quarto estava na penumbra. O tempo passou e eu fiquei cada vez mais nervosa, esperando que a qualquer momento Augusto entrasse ali. Tinha medo dele. Medo que me machucasse, que fosse bruto, que exigisse coisas que nunca imaginei fazer. Tudo o que eu sabia sobre sexo era o que fiz com Thiago. Mas Augusto era um homem duro, experiente, autoritário, mais velho. Eu tinha certeza de que não estava preparada para ele.
Eu acabei ligando a televisão, mas o nervosismo não passou. Por fim, vi que já estava muito tarde e que ele não viria mais. Respirei aliviada. Tranquei a casa toda, e me deitei nos lençóis macios. Apesar de ter dormido à tarde, estava exausta e peguei logo no sono.
Augusto ficou parado na soleira da porta, olhando para a mulher adormecida na cama. Apenas um abajur aceso a iluminava. Estava linda, suave, deitada de lado. Seus cabelos se espalhavam como fios de ouro pelo travesseiro. A camisola marcava sua cintura acentuada e o contorno arredondado do quadril, e se enroscava nas pernas nuas, bem feitas.
Ele entrou no quarto silenciosamente, muito excitado. Estava duro, tenso, irritado. Queria estar logo dentro dela. Depois que a possuísse, aquele desejo insano se abrandaria. E ele se controlaria novamente. Parou ao lado da cama, dominado pela luxúria. Ela seria sua, da maneira que quisesse. Nada o impediria de fazer o que tivesse vontade com ela, de ser seu dono, pois ele a comprara. A sensação de tê-la à sua mercê era uma excitação a mais.
Lorenza se mexeu sobre os lençóis. Depois parou, enrijecendo o corpo. Por algum motivo, Augusto soube que ela sentiu sua presença e acordou. Viu seus dedos se crisparem e o tremor que percorreu sutilmente seu corpo esguio. Silenciosamente, ela virou um pouco o rosto, abriu os grandes olhos verdes e o fitou.
Ele viu como seus olhos espelharam temor, ansiedade, nervosismo. Sua respiração estava agitada, rápida e sem controle. Era apenas uma jovem de aparência inocente, quase virginal. Mas ele sabia que não era assim. Devia ter cuidado com ela.  Para ter se casado com Thiago e ter ficado com ele mesmo sabendo que era um ladrão, devia ser como ele. Não o enganaria com um sorriso doce.
O desejo de possuí-la era quase uma dor. Com raiva pelo que ela despertava nele, resolveu acabar de uma vez com aquela tortura. Ajoelhou-se na cama e pôs a mão em seu ombro, fazendo-a deitar de barriga para cima. Ela arregalou os olhos e protestou baixinho:
– Augusto…
– Fique quieta.
Seu tom autoritário ou a raiva que extravasava dele foi o bastante para fazê-la obedecer. Ficou imóvel quando ele levou os dedos aos botões da frente da camisola. Só sua respiração irregular e seus olhos arregalados denunciavam seu nervosismo.
Ele abriu os botões até a cintura. Bruscamente segurou a camisola e puxou-a para os lados. Seus seios ficaram totalmente expostos ao seu olhar e Lorenza arfou, assustada, tremendo, mas sem fugir.
Eram lindos. Ele sentiu o sangue se agitar quente e denso em suas veias ao ver os seios redondos, firmes e empinados dela. Tinha mamilos pequeninos, de um rosa bem claro, apontando para cima. Com o sangue latejando nas têmporas e tornando seu membro ainda mais duro dentro da calça, ele começou a tirar sua camisola.
Lorenza ficou bem quieta. Não o ajudou ou o impediu. Parecia uma boneca sobre a cama. Só seus tremores e sua pele quente o desmentiam.
Ela era realmente linda, só com a calcinha branca. Apesar de pequena e esguia, suas curvas eram pronunciadas, femininas. Augusto segurou os lados da calcinha e desceu-a por suas pernas, até deixá-la completamente nua. Fitou-lhe os pelos dourados de sua vagina. Era naturalmente loira.
Ele sentiu-se a ponto de estourar de tanto desejo. Seu olhar ardente fixou-se no dela. Falou baixo:
– Abra as pernas, Lorenza.
Ela piscou, nervosa, mordendo os lábios.
– Por favor… – Pediu baixinho.
Mas ele não queria ouvir nada.
– Abra as pernas. – Seu tom autoritário a fez estremecer mais forte. Devagar, ela obedeceu. – Mais.
Ela abriu as pernas na cama. Seu sexo ficou exposto para ele. Era pequeno, rosado, com lábios delicados. Augusto tivera mulheres lindíssimas na cama, mas não lembrava de alguma que o tivesse deixado tão louco como Lorenza.
Bruscamente ele começou a se despir. Ela ficou olhando-o, quieta e trêmula.
Tirou a blusa, os sapatos, a calça e a cueca. Seu membro estava completamente duro, dolorido, a ponto de explodir. Os olhos dela estavam arregalados, como se nunca tivesse visto um homem nu na frente. Ele sorriu, sabendo o que pensava. Ele era muito grande.
Sem preâmbulos, Augusto ajoelhou-se entre as suas coxas e se inclinou para ela. Lorenza tremia sem parar, imóvel, como se esperasse ser violada a qualquer momento. Apesar de desejar entrar nela imediatamente, ele parou ao encostar o peito musculoso em seus seios e o pênis em seu ventre macio, apoiando o peso do corpo nos braços. Fitou-a dentro dos olhos, muito próximo.
 – Quero que me beije.
Ela só ficou olhando-o, como se estivesse em transe. Percebendo seu estado, Augusto encostou os lábios nos dela e os moveu sensualmente. Eram macios e carnudos. Enfiou a língua em sua boca e a beijou. Por um momento ela ficou quieta. Mas então entreabriu os lábios e a língua roçou a dele, que se apossou dela, faminto, beijando-a com voracidade. E ela retribuiu, doce, deliciosa.
Passou a mão em seu quadril, sentindo sua pele quente e macia. Subiu-a até fechá-la sobre um dos seios redondos, firmes e suaves ao mesmo tempo. O mamilo pequeno ficou menor ao endurecer sob sua palma, quando a acariciou. Ela gemeu baixinho em sua boca, como uma gatinha. Ele beijou-a mais, a ponto de perder o controle, colando o corpo no dela, devorando-a.
Parou de beijá-la um momento, vendo seus olhos escurecidos e nublados pelo desejo. Estendeu a mão, pegou sua calça e abriu rapidamente um pacote de preservativo. Lorenza ficou corada, enquanto ele se protegia. Por fim beijou-a de novo, faminto, apertando-a nos braços. Desceu a boca por seu queixo e pela garganta. Ela tinha um cheiro doce, natural. Beijou-lhe os seios, o que a fez jogar a cabeça para trás e gemer de novo baixinho. Enfiou um mamilo na boca e ficou chupando-o duramente, fazendo-a se remexer sob ele sem controle e enfiar as unhas em seus ombros. Mordiscou o outro mamilo, puxando-o entre os dentes. Ela arfava, trêmula.
Ele não aguentava mais. Beijou-a na boca, enquanto descia a mão por seu ventre e mergulhava os dedos entre seus pelos dourados. Escorregou entre os lábios e ficou surpreso ao senti-la encharcada, gotejando, totalmente preparada para ele. Segurou o próprio pênis e o ajeitou na entrada de sua vagina. Depois parou de beijá-la e fitou-a.
– Você quer isso, não é, Lorenza? Quer que eu entre em você.
Seus olhos verdes estavam cheios de desejo, mas ela não disse nada. Ele moveu-se um pouco, seu membro duro roçando mais seus lábios vaginais molhados.
– Responda. Quer que eu entre em você?
– Não – Ela murmurou agoniada.
– Mentirosa. – Ele sorriu sensualmente enquanto começava a penetrá-la.
Ela era pequena. E ele, muito grande e grosso. Sentiu sua carne macia se esticar em volta do seu membro e agasalhar apertadamente a cabeça. Ela abriu muito os olhos, agarrando-o, tremendo. Augusto empurrou de vagar dentro dela, embora quisesse meter tudo de uma vez. Estar muito molhada facilitava a penetração, mas mesmo assim ela era muito apertada. Sentir a vagina estrangulando-o daquele jeito, tão quente e úmida, deixou-o louco.
– Abra mais as pernas, Lorenza. Quero que tome tudo.
Ela obedeceu e ele enfiou mais fundo, sentindo-a arfar e estremecer. A sensação era deliciosa, colados como estavam, sentindo um ao outro com perfeição. Empurrou de novo dentro dela, conseguindo penetrá-la até a metade. Enfiou as mãos sob suas nádegas e as segurou firmemente, erguendo mais seus quadris, enquanto a penetrava.
– Augusto, pare…
Ele podia sentir a cabeça do pênis no seu útero e ela toda preenchida por ele. Parou um momento, a ponto de ter um orgasmo violento e olhou-a.
– Tome mais. Se abra pra mim. – Enfiou um pouco mais, procurando espaço. Puxou-a para si e ela soltou um pequeno grito quando, com uma investida mais dura, ele penetrou-a até o fundo. Gemeu rouco. – Estou todo dentro de você.
E ela passou a dizer o nome dele sem parar, enquanto ele a penetrava, saindo e entrando nela, indo fundo, apertado, cada vez mais forte. Estavam abraçados, suados, beijando-se na boca, quando ela começou a ondular em seus braços e a choramingar em um orgasmo longo, intenso. Ele gozou fortemente, acompanhando-a. Pareceu durar uma eternidade. Mas por fim, ambos ficaram totalmente dominados pela lassidão.
Ainda dentro dela, enterrado bem fundo, ele ergueu o rosto e olhou-a. Lorenza estava corada, com olhos pesados, um ar de surpresa e satisfação no rosto. Ele apertou o maxilar ao perceber que ainda a desejava com uma fome absurda, como se não tivesse acabado de se esvair dentro dela.
Rolou para o lado, furioso consigo mesmo. Ela era apenas uma mulher a mais. E uma sem caráter. Tirou a camisinha e foi para o banheiro. Quando voltou, ela continuava do mesmo jeito, nua, linda e lânguida na cama. De pé ele começou a se vestir e fitou-a friamente.
– A partir de agora, quero que esteja sempre preparada para mim. Limpa, perfumada, sem calcinha e sem sutiã. Não use calças. Só saias, vestidos e camisolas. Entendeu?
Ela puxou o lençol sobre o corpo e se encolheu um pouco, pálida. Augusto se inclinou sobre ela, segurou seu braço com força e fitou seus olhos com raiva contida:
– Responda.
– Sim, senhor. – Ela falou com raiva também, tentando puxar o braço. Mas ele o apertou mais forte e a trouxe mais para perto. Ela segurava o lençol sobre os seios, quase sentada na cama, seus cabelos espalhando-se por seu peito.
– É bom você saber mesmo quem é o seu dono e senhor. Não me faça perder a paciência, Lorenza.
Ela não disse nada, olhando-o com ódio.
– Vai fazer tudo o que eu mandar.
– Sim, senhor. – Debochou.
Augusto ficou furioso. Quis humilhá-la, dobrá-la. A raiva por desejá-la tanto o enfurecia ainda mais. Com a mão livre, arrancou o lençol que a cobria e jogou-o no chão. Puxou-a para a beira da cama, nua, com seus cabelos de sereia roçando sua mão.
– Fique de joelhos. – Ordenou com violência.
Ela lutou. Parecia uma gata raivosa, fora de si. Ele pegou um punhado do seu cabelo e torceu. Ela arfou de dor e ficou com a cabeça imóvel.
– Se me irritar um pouco mais, Lorenza, juro que te dou uma surra!
Ela ficou quieta, como se enfim percebesse quem sairia perdendo. Mas o olhou com uma raiva muda. Ele sorriu friamente.
– Assim é melhor. Ajoelhe-se.
Ela obedeceu.
– Abra a minha calça.
Ela engoliu em seco, ficando vermelha. Seus seios subiam e desciam com sua respiração irregular. Seu cabelo ainda estava firmemente preso na mão dele. Com dedos trêmulos, fez o que ele mandou.
– Abaixe-a. Com a cueca.
Ela desceu o jeans e a cueca até o meio das coxas dele. Ficou olhando seu pênis duro, totalmente ereto.
– Chupe, Lorenza.
Ela ficou parada por um momento. Seus olhos brilhavam com lágrimas não derramadas. Por fim se inclinou sobre ele, quase de quatro na cama. Seus lábios trêmulos e úmidos tocaram a cabeça do seu membro.
Miguel forçou sua cabeça para mais perto. Ele se controlou, excitado por seu interior tão macio e úmido como sua vagina. Segurou seu cabelo com as duas mãos e empurrou firmemente o membro em sua boca.
Lorenza engasgou e se afastou para respirar um pouco. Mas ele a trouxe de volta.
Ela o deixou entrar até a metade, quando encheu toda sua boca e parou na garganta. Controlou a respiração e começou a chupá-lo gostosamente. Lábios e línguas trabalharam nele, deixando-o duro como pedra. Em nenhum momento ela deixou os dentes roçarem nele. Sabia muito bem o que fazia. Sem querer ele ficou com raiva daquilo, imaginando o quanto ela não devia ter praticado no marido. Ou com os amantes.
– Isso, chupe, sua vadia. E quando eu gozar, quero que engula tudo.
Ela ficou de olhos fechados, chupando-o.
O olhar dele percorreu seu corpo nu, as costas macias, a bunda perfeita, empinada. Ficou louco de luxúria. Fitou os lábios pequenos e macios que o sugavam. Segurou firmemente seus cabelos e esporrou em sua garganta. Gemeu rouco, sentindo-se latejar em sua boca e como ela o bebia. O orgasmo parecia não ter fim. Sentiu-se estranhamente vazio quando acabou.
Augusto queria ir embora, mas olhá-la deixava-o quase que obcecado, como se ainda não tivesse dela o bastante. Sua vontade era possuí-la por toda noite, até aquele desejo insano passar. Naquele momento mesmo tinha vontade de estendê-la na cama, acariciar seu corpo, beijar toda sua pele. Queria sentir o gosto de sua vulva na língua.
Estava furioso por desejá-la daquele jeito. Afastou-a de si e ela caiu sentada na cama, sem olhá-lo. Estava com a boca vermelha e úmida. Ele se vestiu com muita raiva. Sem uma palavra, saiu do quarto e daquela casa maldita.
Eu escutei a porta bater e estremeci. Deitei-me na cama de vagar, começando a chorar baixinho. Ele se foi, mas eu ainda o sentia. Seu gosto estava na minha boca, seu cheiro impregnado na minha pele e a sensação de seu sexo enchendo o meu ainda era muito real.
Sentia-me humilhada, usada, abusada. Mas a verdade era que eu nunca sentira tanto prazer na vida. Sexo com ele ia muito além do que eu pudesse sequer imaginar. Mesmo no final, quando o tive na boca porque ele mandou, eu me excitei. Quase gozei de novo ao chupá-lo, ao engolir seu esperma quente e grosso. Nunca fizera aquilo antes. Mas não senti nojo.
Enfiei o rosto na mão, chorando porque aquele desejo acabaria me deixando louca. Eu era a puta dele. Não teria seu carinho ou seu amor, só sua luxúria e talvez suas depravações. Como eu poderia me proteger, se estava louca por ele? Se nem sendo humilhada eu deixava de querê-lo?
Sua imagem encheu minha mente. Era lindo, forte, musculoso, com aqueles ombros tão largos… As pernas eram musculosas e cabeludas, o peito e o estômago duros, com pelos negros que desciam até seu sexo poderoso. Gemi, sentindo como fora maravilhoso quando aquela carne dura e grossa, cheia de veias, entrou em mim. Ele era enorme e lindo e me deixou cheia até a alma. Eu nunca mais me acostumaria com outro homem.
Pensei em Thiago e fui engolfada pela culpa. Eu não o estava traindo. Ele sabia. Ele concordou. Mas de qualquer forma eu ainda era casada. Ele era um garoto bobo perto de Augusto. Eu não estava preparada para um homem como ele. Fiquei ali deitada, cheia de medo do futuro, com imagens eróticas me consumindo, completamente fora de mim. Sabia que depois daquilo, eu nunca mais seria a mesma.
O dia seguinte foi uma tortura. Fiquei sozinha, trancada naquela casa, sem ter o que fazer. Sempre trabalhei e era horrível ficar ociosa, olhando para as paredes. Só me ocupei da comida, almocei, lavei a louça e a tarde se estendeu vazia.
O tempo passou, mas fiquei sentada no sofá, esperando-o. Sabia que ele vinha e não queria ser pega de surpresa novamente, dormindo. A sala estava com a luz acesa e a televisão desligada. Eu me sentia nervosa, ansiosa e com o corpo pegando fogo. Não conseguia pensar em nada além dele.
Mesmo assim, tomei um susto quando a porta se abriu de repente. Augusto entrou, bateu a porta e parou ao me ver no sofá.  Seus olhos lindos e intensos, de um castanho raiado de dourado, fixaram-se nos meus. Seus cabelos negros estavam úmidos e ele usava jeans e uma camisa azul clara que marcava seus ombros largos. Era tão grande que parecia preencher o espaço da porta e tão bonito que fez meu coração acelerar sem controle.
Nada nele era suave quando caminhou para mim. Parecia ser formado de ângulos duros e músculos. Exalava poder e sensualidade. O modo que me fitava era primitivo, rude, como se eu fosse dele para usar à vontade.
Não pude evitar um tremor de medo e excitação. Nunca tinha me sentido tão viva e intensa, com todas as minhas emoções à flor da pele. Eu o temia, me envergonhava da minha situação, mas o desejo que sentia por ele dominava tudo, de maneira voraz, irracional.
Augusto não disse nada quando parou à minha frente. Abaixou-se e pôs as mãos em meus joelhos.  Afastou-os para os lados, abrindo minhas pernas. Eu mal podia respirar. Então, segurou a barra do meu vestido e começou a levantá-lo.
Eu estava imóvel, meu olhar preso pelo dele. O vestido subiu por minhas coxas e por meus quadris. Parou na minha cintura. Então seu olhar se fixou em meu corpo exposto da cintura para baixo, com pernas abertas. Fitou meu sexo nu e seus olhos escureceram devagar.
Ele enterrou os dedos em meus quadris e me puxou bruscamente para baixo, de forma a quase me deitar, sentada praticamente na beira do sofá. Entre as minhas pernas, ele abaixou a cabeça e eu arfei sem controle ao sentir seu nariz afilado roçar meus pelos loiros, me cheirando. E então sua língua me lambeu sensualmente.
Mordi os lábios para não gritar de prazer, estremecendo sob a sua boca. A língua ia certinho no meu clitóris, lambendo-o de vagar, deixando-o duro, latejante. Senti meu ventre se contorcer e as sensações deliciosas que se espalharam pelo meu corpo, quente e arfante. Minha vagina ficou toda molhada, empapada, pegando fogo.
Era tão gostoso que meus quadris ondularam sem controle, procurando sua língua. Ele aproveitou e desceu-a pelos lábios vaginais, lambendo-os, sugando o líquido espesso que se desprendia de dentro de mim. Passou a me chupar ali. Eu gemia, fora de controle, latejando e quase chorando de tanto prazer. O gozo se aproximava e eu ergui mais os quadris, abandonada. Foi quando ele me largou.
Quase supliquei que ele voltasse e me deixasse gozar, mas fiquei imóvel ao fitar seus olhos cheios de uma luxúria poderosa, furiosa. Abriu a calça sem preâmbulos e abaixou-a com a cueca, expondo o membro totalmente duro. Extasiada, não pude desviar o olhar enquanto ele colocava um preservativo. Ele passou a mão pelo membro, segurando-o.
Quando Augusto me puxou mais para a beira do sofá, envolvendo minha cintura com um dos braços, eu abri ainda mais as pernas. Ele se inclinou, segurando o pênis, levando-o até minha vagina molhada e latejante, toda aberta para ele. Soltei um grito rouco quando ele me puxou mais e me penetrou.
Entrou apertado, duro, me esticando. Chegou ao meu ventre e eu tremia, me esticava, me entregava por inteiro. Forçou e entrou tudo, até o fundo. Parou e se esticou para me olhar, enterrado em mim até as bolas.
Com violência, rasgou a frente do meu vestido e me puxou bruscamente para si, sentada ereta na beira do sofá, toda aberta e empalada por ele. Uma de suas mãos emaranhou-se em meus cabelos, a outra rodeou meus quadris, seus dedos enterrando-se na carne macia de uma das nádegas. Foi assim que ele chupou meu mamilo duramente.
Abracei-o com força, apertando seus ombros ainda cobertos pela camisa. Enfiei uma das mãos em seus cabelos cheios, grossos e macios, puxando-o mais para o meu peito que ele chupava. Choraminguei quando ele moveu os quadris, penetrando-me mais forte e fundo, em estocadas deliciosas.
O orgasmo veio fulminante e estremeci sem cessar em seus braços, gemendo, agarrando-o, me movendo com ele. Augusto continuou a me penetrar fortemente, indo e vindo em minha vagina apertada, sem delicadeza. Mordiscou o outro mamilo e eu arfei, no limite da dor e do prazer.
Estava exausta pelo gozo intenso, meu corpo lânguido, meus membros pesados. Mas o desejo continuava dentro de mim e eu o segurei com força, entregue, saboreando a delícia de ser penetrada, tocada e beijada por ele. Puxei sua cabeça do meu peito, segurei seu rosto entre as mãos e beijei-o na boca com volúpia. Ele retribuiu na hora, sugando minha língua, imitando o ato sexual em minha boca, enquanto ia e vinha duramente em minha vagina.
Era delicioso e o torpor do meu orgasmo foi passando. Estava arrepiada e excitada. Ele me pegou com força e, sem que eu esperasse, parou de me beijar e saiu de dentro de mim. Antes que eu me desse conta do que acontecia, ele me virava bruscamente no sofá.
Ajoelhei a sua frente, de costas para ele, um pouco perdida. Ele apoiou a mão grande no meio das minhas costas e me fez deitar o tronco no sofá. Segurou firmemente meus quadris, ergueu-os, empinando minha bunda. Senti seu pênis grande forçar minha vagina e ele me penetrou violentamente por trás. Gemi e estremeci, sentindo-o ir fundo e forte, sem pena. Augusto segurou os dois globos de meu bumbum e os abriu, mantendo-me quieta sobre o sofá, de bruços, empinada, com o rosto pressionado no tecido escuro. Mordi os lábios e fechei os olhos, imaginando que ele podia ver nossos sexos unidos enquanto me penetrava daquele jeito.
Ele tornou-se mais duro e exigente. Me devorava sem piedade, fundo e forte. Eu tremia, excitada e angustiada, dolorida e mesmo assim sentindo meus músculos macios puxando-o para dentro. Suas estocadas eram furiosas, seus dedos me abriam mais. Com as pernas abertas, meu clitóris roçava a beira do sofá a cada penetrada que ele dava.
Senti lágrimas nos olhos quando o gozo explodiu na minha vagina, mais intenso ainda daquela vez, espalhando-se pelo meu corpo. Gemi o nome dele, sufocada e alucinada. Não acabava. O orgasmo se estendia, numa tortura, fazendo-me chorar sem controle.
Augusto me agarrou com mais força e gemeu rouco, também tendo um orgasmo poderoso. Terminamos juntos, suados e arfantes, nossos corpos lânguidos. Ele ficou quieto, enquanto sua respiração voltava ao normal. Então deslizou o membro pra fora de mim, até sair e me soltar, me deixando estranhamente vazia.
Ouvi que ele puxava a calça para cima e se vestia, já de pé. Trêmula, abaixei o vestido e me sentei com dificuldade no sofá. Segurei a frente rasgada com uma mão sobre os seios sensíveis e doloridos. Com a outra mão, afastei o cabelo do rosto e o olhei.
Ele fechava o botão da calça e ajeitava a camisa, me encarando friamente. Nem parecia o homem que praticamente me devorara como um animal naquele sofá. Tive inveja do seu controle, pois eu me sentia uma massa confusa de sensações. Estava trêmula, respirando irregularmente. Ele não disse nada. Percebi que não falara nem sequer uma palavra desde que entrara ali. E, como se realmente não houvesse o que dizer, ele olhou-me da cabeça aos pés com uma espécie de desprezo. Já havia feito o que queria. Assim, deu-me as costas e simplesmente saiu da casa, fechando a porta atrás de si.
Fiquei imóvel, olhando aquela porta. Por fim, abracei-me pela cintura, sentindo-me um lixo. Para ele, eu só servia para sexo. Depois de usada, seria descartada como a camisinha que ele largou no chão. Não tive nem vontade de chorar.
Episódio 4 –  A fuga.
Augusto estava tomando café com os irmãos no dia seguinte, mergulhado em pensamentos. Seu semblante era fechado e estava de mau humor desde que acordara e sabia de quem era a culpa. Lorenza. Aquela mulher desgraçada não saía de sua cabeça, como se fosse um vício. Sua vontade era a de estar com ela, enterrado nela.
Estava furioso. Quando desejava uma mulher, fazia sexo com ela e o desejo diminuía até acabar e se dirigir para outra pessoa. Nunca acontecera aquilo, desejar tanto uma mulher a ponto de viver com o pênis duro, mesmo quando acabava de tê-la. Não ficava satisfeito. Ela parecia ter se entranhado nele e odiava aquele domínio sobre o seu corpo e os seus pensamentos.
– Mano, você está com uma cara! – Exclamou Lucas, sorrindo. – Parece a ponto de matar alguém.
Lançou lhe um olhar frio e não respondeu. Tomou um gole do seu café forte e puro. Não estava com humor para as brincadeiras do seu irmão caçula.
– Aposto que é mulher. Será que é aquela gata que você tirou do marido e que mantém para suas orgias na casinha aí de frente? – Seus olhos castanhos foram para Mário, que comia calmamente pão com presunto. – Você já a viu, Mário? Sabe que ainda não pus os olhos nela?
– Cale a boca e coma. – Disse Mário.
– Por quê? – Lucas franziu o cenho, curioso. Olhou de novo para o irmão mais velho. – Confesso que estou surpreso com essa história toda. Você nunca fez de escrava sexual a mulher de algum cara que te devesse. Essa daí deve valer a pena.
Augusto não se deu ao trabalho de responder. Lucas, um tanto mimado e inconsequente, fez cara feia.
– Qual é! Parece que estou falando com duas paredes! Nunca me dizem nada! Sou sempre o último a saber de tudo. Só estou curioso. Isso é crime?
Lucas reclamou. Ficou quieto por um momento, até terminar seu suco de laranja. Depois olhou de novo para Augusto.
– Posso ir lá dar uma olhada nela?
– Ela não é um pedaço de carne pendurada no açougue. – Disse entredentes, largando sua xícara no pires com irritação.
– Hei, calma! – Ele riu. – Entendi, é só sua. E pensar que sempre divido minhas garotas com vocês. Certo. Deve ser boa mesmo, para te deixar assim tão possessivo.
– Não estou possessivo.
– Sei. – Lucas ampliou o sorriso. – Só um pouquinho obcecado por ela. Cara, será que ela te flechou?
Augusto se levantou, furioso.
– Você tem sorte de ser meu irmão. – Saiu da sala de jantar.
Enquanto se dirigia para os estábulos, andava pisando duro, lançando um olhar de raiva para a casa que Lorenza ocupava. As janelas estavam abertas. Ela estava acordada. Não estava obcecado por ela. Era só sexo. Mas o irmão o deixara furioso. Não queria que ninguém pensasse que ela tinha importância para ele, pois não tinha. Lorenza Prado era apenas a mulher de um calhorda, que pagava com sexo o que o marido e ela lhe deviam.
Pensou que a história já devia estar circulando pela fazenda e pela ilha. Teria que deixar bem claro que ali ele era a lei e que Thiago e Lorenza estavam pagando a pena que ele lhes dera. Ele trabalhava de graça, ela era uma puta. Simples assim.
Eu estava quase subindo pelas paredes, cansada de ficar em casa sem fazer nada, principalmente num dia lindo como aquele. Era horrível e eu perdia até a vontade de comer. Ficava na janela olhando para fora, pensando que a gente só dar valor à liberdade quando perde. Se não percebesse os capangas circulando por ali, eu tentaria fugir só para correr ao ar livre.
Estava já a ponto de sair da janela, quando vi Augusto vir de cavalo em direção a casa. Ainda estávamos na metade da manhã e fui atacada pelo nervosismo. Pensei que ele estivesse trabalhando e que só viria à noite.
Ele parou o cavalo negro e lustroso em frente à porta e me olhou, sem desmontar. Estava sério e duro como sempre. Ordenou friamente:
– Vem aqui, Lorenza.
Fiquei surpresa, por um momento sem saber o que fazer. O que ele tinha em mente daquela vez? Percebi seu olhar impaciente e irritado e não quis provocá-lo. Assim, me afastei da janela e caminhei até a porta fechada, um tanto nervosa. Abri a porta e saí para o pequeno pátio ensolarado na frente da casa.
Ele passou o olhar do meu cabelo preso em uma longa trança, da camisa branca de botões na frente, pela saia estampada com florezinhas, rodada, minhas pernas nuas, até meus pés calçados em sandálias rasteiras. Corei, sentindo-me nua. Ele sabia que não usava sutiã e nem calcinha, como ele mandara.
– Venha dar uma volta comigo.
Nem acreditei naquilo. O alívio me engolfou, por poder sair daquela casa.
– Vou só trocar a roupa e …
– Não vou esperar. – Ele me estendeu a mão.
Não parei para pensar. Faria qualquer coisa para me sentir um pouco livre novamente. Aproximei-me e segurei sua mão. Ele se inclinou e me puxou para cima do cavalo como se eu não pesasse nada.  Fiquei sentada de lado na cela, à sua frente, meu ombro direito encostado em seu peito forte. O cavalo se mexeu, incomodado. Augusto manteve-me firme entre seus braços, pegou as rédeas e fez o cavalo começar a andar.
Fiquei bem quieta, com medo que algo o desagradasse e ele me obrigasse a passar o dia todo dentro de casa. Vi que a saia estava bem comportada e relaxei, passeando o olhar pela linda paisagem da fazenda. O céu estava muito azul e uma brisa suave soprava.
Cavalgamos sem pressa pelos campos verdejantes. Era uma fazenda enorme e próspera, com plantações e criações de cavalos. Vi pessoas ao longe, trabalhando, mas evitei olhá-las diretamente. O que elas deviam pensar ao me ver com ele? Saberiam quem eu era? Incomodada, fiquei indecisa entre o prazer do passeio e a vergonha de ser vista em público como a puta dele.
Nós nos afastamos ainda mais pelos campos. Eu estava muito consciente do corpo e do cheiro de Augusto. Sentia-me viva e pulsante tão perto dele, com vontade de acariciar seu queixo duro perto da minha cabeça e beijar a pele morena do seu pescoço. Por um momento fechei os olhos, imaginando o que ele faria se eu o tocasse. Imaginei também como seria se estivéssemos juntos por livre escolha e eu não fosse casada. Ele me trataria melhor? Seria carinhoso? Será que ia sorrir para mim?
Escutei barulho e vozes e abri os olhos rapidamente. Descíamos um pequeno declive e vi alguns homens trabalhando duramente sob o sol, consertando uma cerca. Fiquei nervosa porque nos encaminhávamos para lá.
Há poucos metros do local, os homens nos viram. Eram oito, alguns sem camisa, todos suados e com poeira, usando chapéu. Fiquei rígida na cela, quando nos saudaram respeitosos e curiosos e o cavalo parou. Tarde demais, percebi o rapaz magro e queimado de sol que batia com martelo em uma estaca da cerca e que se virou para nos olhar, enxugando o suor da testa com a manga da camisa. Eu e ele nos encaramos, imóveis e surpresos.
Era Thiago. Os machucados do seu rosto estavam quase sumidos, mas ele parecia cansado. Seus olhos castanhos espelharam dor, raiva, ciúme.
Eu fui engolfada por uma vergonha violenta e empalideci. Apesar de tudo, nós ainda estávamos casados. Eu não o perdoava por ter me colocado naquela situação, mas fiquei com pena ao ver seus olhos pela primeira vez sem o brilho alegre. Estávamos ambos humilhados, pois todos viam a mulher dele com o patrão, enquanto ele trabalhava de sol a sol.
Entendi, enfim, porque Augusto me convidara para o passeio. Ele era um homem cruel. Fora só para nos humilhar, para mostrar a todos quem mandava e o que acontecia quando era desrespeitado.
 Os outros homens, sem saber ao certo o que fazer, voltaram a trabalhar. Um deles ordenou algo a Thiago. Ele me olhou com raiva e depois com ódio para Augusto. Pegou o martelo e voltou a bater na estaca.
– Vamos sair daqui. Por favor. – Pedi baixinho, com os olhos rasos d’água e uma ardência no peito. Tinha vontade de sumir, de que a terra me engolisse.
– Não.
– Por favor. – Supliquei.
Como resposta, a mão dele em minha cintura subiu por baixo da blusa, até se espalmar sobre a pele lisa do meu estômago. Tomei um susto quando seus dedos envolveram meu seio esquerdo.
– Pare. – Murmurei, tentando me soltar. O cavalo bufou, impaciente. Augusto disse ameaçador em meu ouvido:
– Se você não ficar bem quietinha, vou te deixar nua na frente deles e permitir que cada um monte em você.
Eu fiquei imóvel, sentindo os olhares de esguelha dos homens. Algo gelado na voz dele me fez ter certeza de que ele teria coragem de pôr a ameaça em prática. Sua mão espalmou meu seio, esfregando lentamente o mamilo duro.
– Como está o trabalho aí? – Perguntou aos homens.
– Tudo bem, senhor Montês. – Um deles respondeu respeitosamente, lançando olhares disfarçados para nós. Era óbvio que percebia a mão dele se movendo sob a minha blusa. – Estamos desenrolando o arame para amarrar nas estacas.
A outra mão dele deslizou por minha perna, erguendo um pouco a saia até a coxa, que ele acariciou. Eu cerrava os dentes para não chorar, quase não podendo nem respirar. Vários homens nos olhavam, disfarçavam, nos olhavam de novo. Thiago parou de martelar e ficou pálido vendo o que acontecia.
– Alguma reclamação do senhor Thiago Prado? – Havia algo de ameaçador no tom de Augusto. Eu tinha certeza que ele encarava fixamente Thiago, enquanto me bolinava na sua frente.
O rapaz piscava muito, nervoso, branco como cera. Desviei o olhar, envergonhada e humilhada. Um dos homens respondeu:
– Não, senhor Montês. Estamos de olho nele. Volte a trabalhar, homem!
Thiago tremia visivelmente. Voltou-se para a estaca, martelando com raiva.
– Ótimo. Estou satisfeito por hoje.
Calmamente Augusto cumprimentou seus empregados. Tirou a mão do meu seio e da minha coxa e pegou as rédeas. Fez o cavalo dar uma volta e retornou na direção da casa.
Cavalgamos em silêncio. Eu não sentia mais alegria nenhuma, só agonia e uma vontade louca de me trancar novamente dentro da casa e chorar até não aguentar mais. Sentia uma raiva absurda dele.
O cavalo parou em frente à casa. Na mesma hora, pulei de qualquer jeito no chão, quase caindo de joelhos, só querendo me afastar dele. Corri em direção à porta e ouvi a ordem de Augusto:
– Lorenza! Pare!
Entrei furiosa, com vontade de matá-lo. Bati a porta com força, mas tremia tanto que a chave caiu no chão. Nem tive tempo de pegar, pois ele abriu a porta violentamente, me empurrando para trás.
– Eu mandei você parar. – Ameaçou com os olhos brilhando perigosamente.
– Saia daqui! – Gritei, com lágrimas descendo descontroladamente por meu rosto, andando para trás. – Me deixe em paz!
– Aqui eu mando e você obedece, não o contrário. Vem aqui, Lorenza.
– Não. – Ergui o queixo, furiosa, envergonhada, humilhada. – Você pode me humilhar na frente dos seus homens e do meu marido, pode me manter prisioneira aqui e me usar quando quiser, mas não vai me impedir de falar! Eu odeio você! É um canalha arrogante que se diverte escravizando pessoas! Odeio você!
– Cale a boca, sua putinha. – Também furioso, ele agarrou meu braço e me encostou na parede do corredor, com força. – Pensa que me importo com a sua opinião? Que está aqui nessa casa para ser saciada e respeitada? Você é uma ladra, uma falsa e uma piranha, e é assim que vai ser tratada. Todo mundo vai saber o que está fazendo aqui, pagando com seu corpo o roubo de vocês!
– Me solte! – Puxei meu braço, chorando, mas ele apertou mais e me sacudiu. Puxou-me para perto e falou baixo:
– Vou fazer o que quiser com você. Só vou soltá-la se eu quiser. E é melhor você se controlar e ficar bem quietinha, pois estou perdendo a paciência!
Olhei-o com muita raiva.
Ele queria dobrá-la. Estava também furioso. Podia ver a mágoa em seu olhar, depois de ter encontrado o marido. Quisera humilhá-la, mostrar a Thiago que agora ela era dele, mas sentira uma raiva absurda quando vira como eles se olharam. Como ele a abalava. E o ciúme doentio que estava sentindo o enfurecia ainda mais. Queria machucá-la pelo poder que ela tinha sobre ele.
Arrastou-a para o quarto. Ela voltou a lutar e tentar se soltar.
– Não! Eu não quero!
– Eu quero. E vou ter você.
Empurrou-a na cama. Ela caiu de bruços, mas se virou logo, com raiva. Ele segurou-a pelas pernas e puxou-as, abertas, levantando a saia. Prendeu-a na cama com o próprio corpo, esmagando-a com seu peso.
– Pare! – Lorenza empurrou-o pelos ombros, vermelha e tremendo.
Augusto segurou seus pulsos acima de sua cabeça sem dificuldade. Com a outra mão, abriu a própria calça e abaixou a cueca. Seu membro já estava ereto. Ela gritou, se contorcendo inutilmente, só conseguindo encaixá-lo ainda mais entre as suas coxas nuas.
– Odeio você! Vou pensar em Thiago! É a ele que amo! É só ele que quero!
A voz dela, rouca de tanto chorar, penetrou sua mente. O ciúme corrompeu-o. A raiva foi maior que tudo.
– Pode pensar o que quiser, sua vadia. – Com violência, forçou a penetração. Ela não estava molhada como das outras vezes e ele era grande demais. – O que importa é que sou eu quem está te comendo.
Ela empalideceu de dor. Não entraria. Parou, olhando-a. Deixou-a presa com uma das mãos e desceu a outra por sua barriga. Seus dedos encontraram o pequeno botão do seu clitóris. Continuava encaixado na entrada de sua vulva, sem forçar mais. Acariciou-a lentamente. Ela estremeceu.
– Não… – Murmurou agoniada. Seus olhos verdes estavam com lágrimas novamente.
Augusto acariciou o botãozinho bem devagar. Sentiu-o duro, inchando contra seu dedo. E que o corpo dela não estava imune às carícias, embora seu olhar espelhasse muita raiva. Enfiou o rosto em seu pescoço e mordiscou sua pele doce, perfumada, sua língua saboreando-a de leve.
Lorenza tentou se soltar novamente, choramingando. Ele já a conhecia o suficiente para saber que se excitava, mesmo lutando contra. Desceu a boca por seu ombro, sem parar de rodear seu clitóris. Quando a penetrou mais, quase gemeu de satisfação ao sentir sua vulva molhada. Entrou devagar, mas fundo, sem parar. Ela arfou e parou de lutar.
Encontrou a barreira de sempre, mas forçou a penetração até abri-la mais e entrar todo nela, até a base do seu pênis. Estava muito excitado. Soltou seus pulsos e seu clitóris. Segurou suas coxas e abriu-as bem para os lados, deixando-a arreganhada para devorar sua vulva macia e quente com o membro duro e inchado. Meteu nela com vontade, movendo os quadris ferozmente para penetrá-la com força, gemendo rouco.
Ela mordia os lábios, enroscando os dedos nos lençóis para não tocá-lo. Augusto não se importou. Olhou-a dentro dos olhos, com fúria e luxúria. Perguntou baixo:
– Consegue pensar em outra coisa agora, que não seja em mim, Lorenza?
Ela desviou o olhar, trêmula, silenciosa.
– Você gosta. É a minha e vai ser até quando eu quiser.
Ele voltou a acariciar seu clitóris com o dedo, enquanto a penetrava. Ela fechou os olhos, seu corpo estremecendo sem controle. Ele desceu a boca e chupou seu mamilo.
Sentiu-a gozar, sem emitir um som. Ele não aguentou mais e gozou também, despejando seu sêmen dentro dela, até ambos ficarem saciados. Rolou para o lado e deitou-se na cama. Na pressa, fez sexo com ela sem preservativo.
– Você toma anticoncepcional?
Ela não respondeu.
Augusto olhou-a. Quieta, fez apenas que sim com a cabeça.
– Quando acabar você me fala. Vou continuar te comendo sem preservativo. – Ele se sentou na cama e fechou a calça. Levantou-se. Ela continuava com a saia levantada e a blusa aberta.
Sabia que estava ainda mais humilhada, por não ter conseguido resistir ao prazer. Gostava de saber que também era afetada por ele. Mas sentiu-se incomodado por ela parecer tão frágil naquele momento.
– Voltarei mais tarde, Lorenza. Esteja pronta para mim.
À noite Augusto sentou-se em uma das poltronas da varanda, com o olhar fixo na casa branca com luzes acesas. Queria ir até lá. Precisava estar de novo com Lorenza, mas queria se controlar primeiro.
Mário saiu da casa e encostou-se em uma coluna. Lançou um olhar para a casa e depois para o irmão, enquanto acendia um cigarro.
– Você anda calado demais, Augusto.
– Vai dar uma de Lucas agora?
– Em uma coisa ele tinha razão. Essa mulher está mexendo com você.
– Não diga besteira. – Fitou o irmão com irritação.
Mário não se deixou abalar. Sempre foram muito unidos e amigos. Tragou por um momento e continuou:
– Você a quer para si, não é?
Augusto riu sem vontade.
– Aquela puta e ladra? Está louco?
– Ela é jovem. E talvez não seja ladra.
– Não é a primeira vez que o marido rouba alguém e ela permaneceu com ele. Não parece ser tão burra. Então é, no mínimo, conivente.
– Isso não importa. Se você a quer, tome-a.
– O que você acha que estou fazendo? Estou transando com ela. E é só sexo, Mário.
– Certo. – Ele expeliu fumaça. – Ela é bonita. Também gostaria de transar com ela. O que você me diz?
Augusto encarou o irmão com fúria. Mário não desviou o olhar. Então ele entendeu. Mário o estava testando. Já haviam compartilhado mulheres antes. Se Lorenza não fosse importante, ele aceitaria compartilhá-la também. Lutou por um momento com o ciúme e o orgulho. Por fim se levantou.
– Tudo bem. Vou trazê-la para jantar aqui e nos entreter um pouco. Avise ao Lucas.
– Tem certeza? Não custa admitir que ela é importante.
– Ela não é.
Augusto desceu os degraus da varanda pisando duro. Andou com passos rápidos até a casa em que ela estava, um tanto enfurecido. Abriu a porta e entrou. Ouviu barulho na cozinha e foi para lá. Lorenza estava lavando arroz na pia e assustou-se ao vê-lo.
Ela ainda estava magoada e com raiva dele. Pioraria ainda mais após aquela noite. Mas seria bom. Ela reconheceria o seu lugar. E ele também.
Estava com os cabelos loiros soltos, caindo macios e lisos por suas costas. O vestido que usava, apesar de simples, a deixava linda. Era verde escuro, de zíper na frente, marcando sua cintura e justo nos seios redondos. A cor valorizava ainda mais seus olhos cristalinos. Usava sandálias baixas.
– Deixe isso aí, Lorenza.
Ela pôs a vasilha com arroz sobre a pia. Ficou de frente para ele e ergueu o queixo.
– Devo ir para a cama agora, senhor?
Era abusada e ele se enrijeceu. Olhou-a por um momento. Por fim, falou friamente:
– Você vai jantar comigo.
Ela ficou surpresa. Depois desconfiada:
– Aqui?
– Não. Venha.
– Espere. – Estava agora nervosa. – Vai me levar para a cidade? Mostrar para todo mundo que estou aqui como… como…
– Uma puta? Não. Vamos para a minha casa.
– Augusto…
– O que é agora? – Estava impaciente.
– Por favor, me deixe aqui. – Era óbvio o seu medo.
– Só estou te chamando para jantar.
– Eu sei que não é só isso. Você provou hoje que não faz nada que não tenha uma consequência.
– Pode ser. Mas esqueceu que dito as regras. Não tem para onde fugir. Assim, fique quietinha e venha comigo.
Ela viu que não tinha saída. Ele a forçaria, se fosse preciso. Silenciosamente, saiu na sua frente.
A noite estava fresca e estrelada. Tudo parecia muito tranquilo na fazenda, mas o nervosismo dela parecia ser sentido no ar.
Lorenza olhou preocupada para o casarão, enquanto subiam os degraus da varanda iluminada. Augusto abriu a porta e sorriu com frieza:
– A casa é sua.
Ela entrou temerosa, como se estivesse indo para o covil de um leão. Tremia visivelmente quando deram na enorme sala e ela parou, vendo Mário de pé perto de uma janela e Lucas sentado no sofá, de pernas cruzadas e balançando um pé impacientemente.
Augusto quase sentiu pena quando ela o olhou suplicante, desconfiada, com medo. Teve vontade de arrancá-la dali, afastá-la dos irmãos e escondê-la só para si. Mas não a queria, pelo menos não conscientemente. Queria era pôr fim aquele sentimento de posse. Ignorou-a propositalmente e disse aos irmãos:
– Essa é Lorenza Prado.
Mário olhou-a em silêncio. Lucas levantou-se na hora, sorridente, olhando-a de cima para baixo.
– Lorenza. Mas que moça linda! É um prazer conhecer a mais nova… inquilina da nossa fazenda.
Ela ficou dura e fria quando ele se aproximou, todo satisfeito.
– Quer dizer que meu irmão aí resolveu ser civilizado e te convidar para jantar? Era mais do que hora! Hei, garota, o gato comeu a sua língua?
– Não.
Lucas ergueu uma sobrancelha, divertido. Gostava muito de se divertir às custas dos outros. Já Mário estava sério, talvez incomodado com o medo dela.
– Vamos jantar de uma vez. – Disse Augusto, irritado.
Lucas e Mário foram na frente. Ele fez um gesto para que os seguisse. Lorenza andou em silêncio, seguida por ele. A enorme sala de jantar já estava com a comida posta na mesa. Lorenza olhou em volta, meio perdida. Augusto puxou uma cadeira para ela, que sentou rigidamente à direita da cabeceira, onde ele se acomodou. Lucas e Mário sentaram-se do outro lado, à sua esquerda.
– Não se faça de rogada, garota! – Lucas piscou para ela. – Pode comer à vontade! Você vai adorar a sobremesa!
Eu engoli uma garfada da comida, sem conseguir sentir o sabor. Parecia papelão, tamanho o nervosismo que eu sentia. Os outros pareciam comer normalmente, apesar da tensão no ar. Só Lucas falava e parecia se divertir. Eu o odiei. Era mimado e falso. Sabia que se divertia em me ver assustada. E que queria pôr as mãos em mim. Sentia muito medo. Não era possível que Augusto me usaria ali, na frente dos irmãos. Ou o pior, me desse para que eles usassem. Queria correr, fugir e gritar, mas ninguém me ajudaria.
Não havia muito sobre o que conversar, mas pelo menos Mário era educado e puxava conversa banal. Quando o jantar acabou, eu estava tremendo. Voltamos à sala silenciosa. Augusto me indicou o sofá. Os três me olharam. Meus olhos se encheram de lágrimas e soltei uma risada nervosa.
– O que vocês vão fazer?
Augusto cerrou o maxilar. Sem querer, supliquei com o olhar que ele me tirasse dali. Mas ele falou com bastante frieza:
– Meus irmãos vão transar com você. Parte do pagamento. Em compensação, eu a liberarei um pouco antes do prazo.
– Por favor, Augusto. Me leve embora. Por favor. – Pedi, tremendo e tonta.
– Nada disso, querida. Vamos nos divertir primeiro. Você vai gostar. – Sorriu Lucas.
Eu olhei para ele e para Mário. Esse estava quieto, frio. E então fitei Augusto. Seu olhar era raivoso. Meu Deus, ele me odiava! Nunca me ajudaria.
O medo e a coragem me fizeram correr sem pensar para a porta. É claro que eu não tinha chance. Lucas riu deliciado ao me agarrar por trás quando esperneei e gritei.
– Deixe-a ir, Augusto. – Disse Mário, olhando Lucas se divertindo ao agarrar Lorenza por trás. – Ela não quer. Está com medo.
– Ela não tem vontade. – fitou-o furioso – Não era você que me pediu para compartilhá-la?
– Mudei de ideia. Leve-a para casa e pare de besteira.
Augusto olhou para Lucas, que a segurava com força contra a porta, acariciando-a, tentando beijá-la. Ele se debatia, lutava, chorava. O desespero dela era tão grande, que algo dentro dele pareceu se romper. Tentou se controlar, mas o ciúme e a raiva de si mesmo subiu por sua garganta e Augusto não se controlou. Agarrou o irmão caçula furiosamente e afastou-o do caminho.
– Largue-a, porra!
– Mas o que…
– Cale a boca! – Virou-se para ela. Lorenza tremia, ainda fora de si, aterrada. Xingando a si mesmo, pegou-a pelo braço e saiu com ela do casarão, sob o olhar atônito dos dois irmãos. Só parou ao entrarem na casinha branca.
Ela puxou o braço e se afastou dele, nervosa, chorando.
– Lorenza…
– Eu odeio você, Augusto! Odeio você! – Começou a gritar, descontrolada. – Sai daqui! Por favor, sai daqui!
Mesmo sem querer, ele se sentiu um lixo. Sem uma palavra, deu-lhe as costas e saiu.
Eu nunca chorei tanto como naquelas duas horas em que Augusto me deixou sozinha naquela casa que se tornara a minha prisão. Não via solução para meu caso, uma escrava sexual que fora levada ao limite da humilhação. Não sabia o que devia esperar dali pra frente, se Augusto manteria os irmãos longe de mim ou quando eu teria novamente a minha liberdade. Estava com medo, com muito medo.
Assim, soube que só havia uma solução. Peguei meus documentos, o pouco dinheiro que tinha, pus dentro da calça e saí da casa me esgueirando pela escuridão. Fugi de onde sabia ter mais empregados, contando que já passava das onze da noite. Aproveitei as sombras e os cantos escuros.
Perto dos estábulos, vi muito movimento, que carregavam uma caminhonete. Fiquei quieta, ouvindo que carregariam um pequeno barco cargueiro que sairia da ilha naquela noite ainda. Esperei, com muito medo, mas decidida. Por fim, quando tive uma oportunidade, corri para a caminhonete e me escondi no meio da carga já carregada. Aguardei com o coração acelerado. Até que o veículo se afastou da fazenda. Fiquei lá rezando, observando, até que ele parou no pequeno porto da Ilha.
Pulei e corri antes que me vissem. Me esgueirei pelo píer, entre as sombras. Vi o barco, dois homens bebendo na proa, distraídos. O mais silenciosa possível, entrei pelo lado do barco. Contornei-o e desci. Entre outras cargas, encontrei um canto e me escondi. E fiquei lá, enquanto entravam e carregavam mais o barco, sem me ver. Depois de algumas horas, o barco navegava para longe da Ilha. Só então soltei o ar. E comecei a chorar.
Augusto não acreditou quando soube que ela havia fugido pela manhã. Xingou, berrou, quis saber de quem foi a culpa. Como só um barco saiu da Ilha naquela noite, soube para onde ela foi. E decidido, mandou preparar seu barco particular e saiu da Ilha. Jurou a si mesmo que a encontraria. Nem que precisasse ir ao inferno.
Episódio 5 – A caçada
Quase um mês havia se passado e Lorenza sumiu como fumaça. Depois que o barco em que ela fugiu aportou, um dos rapazes do barco a viu se esgueirando e correndo para fora, mas no meio da confusão ninguém conseguiu pegá-la. Só depois, quando souberam que Augusto Montês procurava por ela, se xingaram por não terem ido em seu encalço com mais determinação.
Augusto estava furioso. Ele a subestimara. Na verdade não pensara na possibilidade dela tentar fugir e ainda assim conseguir tão facilmente sir da Ilha. Nem que pudesse evaporar no ar. Empregou esforços e dinheiro e contratou uma agência de detetives para encontrá-la e outra para descobrir o passado dela, saber melhor de suas armações ao lado do marido. Mas depois de trinta dias, começava a achar que nunca mais a veria.
Ninguém chegava perto dele, pois seu humor era terrível. Até Mário, seu irmão e melhor amigo, deixava-o em paz. O que mais o fazia sentir raiva era a falta que sentia dela, o desejo absurdo que o corroía e lambia por dentro. Evitou até chegar perto de Thiago Prado, pois sua vontade era a de socar o rapaz até matá-lo, como se a culpa de tudo fosse dele. É que o ciúme, saber que ele ainda era seu marido, também o fazia passar mal.
Até que no trigésimo dia da fuga dela, Augusto recebeu um telefonema de Camilo Aguiar, o detetive que estava no encalço dela:
– Eu a encontrei, senhor Montês.
– Onde? – Augusto agarrou o telefone com força. Seu coração deu uma acelerada, mesmo ele tentando se controlar.
– No Rio de Janeiro, num município da Baixada Fluminense chamado Mesquita. Foi difícil. Ela se esconde por lá, aluga um quartinho de forma informal e trabalha sem carteira assinada, por isso não estava conseguindo rastreá-la.
– Não tire os olhos dela. Contrate quem for necessário para agir, caso ela tente fugir. E me dê o endereço. Estou indo agora aí.
– Sim, senhor.
Depois que Augusto desligou, virou-se e encarou Mário. Este indagou:
– O que vai fazer com ela?
– Trazê-la para cá. Ela ainda não pagou o que me deve.
– Com certeza fugiu com medo, pensando que ia compartilhá-la conosco. É essa sua intenção?
– Não. Ela é minha, Mário. E vai ser até eu cansar dela. Só então vai poder sair daqui.
– Sabe que isso é ilegal. Aqui você é a lei, mas deve tomar cuidado no Rio. Ela pode procurar a polícia.
– Não terá tempo. E tenho meus contatos. – Ele passou pelo irmão, decidido. – Voltarei logo. Assuma tudo por mim.
Eu ainda não havia me acostumado com minha nova vida. Nem acreditava que estava realmente longe da Ilha. Quase não ficava na rua, a não ser para ir ao trabalho e voltar, não fazia amizades, nem falava de mim. Dei um sobrenome falso na padaria em que trabalhava e também para alugar o quartinho, que pagava semanalmente. Tudo parecia ameaçador, em suspenso. E eu não conseguia viver em paz nem dormir direito.
Augusto Montês não saía da minha cabeça. Eu deitava e acordava com ele no pensamento, dividida entre o medo e a paixão que ele despertava em mim. Era absurdo, eu sabia, mas rolava entre os lençóis com falta dele, podendo sentir na pele seu toque, sentindo seus beijos e seu cheiro, ansiando por ele como nunca julguei que fosse possível. Muitas vezes chorava, pois lutava contra aquela ânsia louca e perdia cada vez mais. Parecia como uma drogada que é obrigada a ficar longe de seu vício, sendo dizimada por ele, a ponto de respirar por ele, almejá-lo com todas as forças.
Ao mesmo tempo, temia por Thiago. E se, com raiva de mim, Augusto tivesse mandado fazer alguma coisa com ele? Eu não o queria mais como marido, não o perdoava por ter me vendido, mas ainda me preocupava com ele. Mas não tinha coragem de voltar. Apesar do desejo avassalador por Augusto, com aquela saudade angustiante, e a preocupação com Thiago, meu medo era maior que tudo. Medo de ser escravizada novamente, de acabar sendo mais humilhada, de ser dada por ele aos seus irmãos. Tudo bem, ele mudara de ideia antes que o fato se concretizasse, mas e se estivesse com raiva e autorizasse? No fundo, eu sempre o desejei, desde a primeira vez que o vi e aquele desejo só me preenchia cada vez mais. Mas não desejava seus irmãos. Isso não.
Assim, eu lutava para seguir adiante. Meu plano era o de juntar um dinheiro e ir para longe, onde nunca mais fosse encontrada. Enquanto isso, todo cuidado era pouco.
Pegava muito cedo na padaria e precisava estar lá antes das 4:40 da manhã. Como era perto, saía do quartinho que eu alugava nos fundos da casa de uma família, atravessava uma rua deserta àquela hora, virava num beco e, ao dar em outra rua, já estava na padaria. Naquela manhã, fiz tudo igual. Por medo de ser encontrada e precisar fugir, andava com meus documentos na bolsa e sempre um pouco de dinheiro.
Havia dormido mal na noite anterior e estava sonolenta. Bocejando, fechei o portão enferrujado e saí para a rua de madrugada, recebida pelo ar frio. Atravessei a rua, tudo estava normal, como qualquer dia anterior. Esfreguei os braços para afastar o frio e entrei no beco. Sempre olhava antes e o atravessava rápido. Ao perceber que estava vazio, segui por ele. Já estava chegando ao final, quando um homem alto e forte surgiu no caminho, fechando a passagem.
Parei abruptamente, tomando um susto. Apesar da penumbra, que escondia o rosto dele, eu reconheci de imediato seus ombros largos e o corpo musculoso, assim como seu movimento masculino, só dele. Perdi o ar e meu coração disparou como um louco. Chocada, fiquei imóvel, até que ele falou friamente:
– Achou que poderia se esconder de mim, Lorenza?
– Augusto…
Eu tremia incontrolavelmente. Meu primeiro instinto foi o de fugir, mas mal tive tempo de me virar. Ele já agarrava meu braço e me jogava contra a parede de cimento do beco, prendendo-me com seu corpo, segurando meus pulsos com firmeza. Arfei, vendo o brilho de seus olhos castanhos fixos nos meus, sentindo o seu cheiro me deixar tonta, sabendo que estava perdida. Uma mescla de raiva e alívio me deixaram fraca, com lágrimas nos olhos, em uma luta interna que nem eu entendi direito. E então lutei, esperneei, pois sabia que nunca mais escaparia dele e isso também me apavorava.
– Fique quieta, desgraçada…
– Não! Socorro! – E ele me beijava furiosamente, calando-me de uma vez, agarrando-me como se eu não pesasse nada, deixando-me prostrada. Tentei fugir, mas o desejo voraz já corria em minhas veias e a saudade latente me deixava de pernas bambas. Por fim ele jogou a cabeça para trás e me fitou intensamente, dizendo baixo, rouco: – Você é minha, Lorenza. Minha.
– Não… – Eu respirei fundo, tentando reagir, brigando em seus braços. – Não vou facilitar! Vou gritar! A polícia vai pegar você e …
– Camilo, agora. – Ordenou Augusto, me segurando com firmeza entre seu corpo e a parede. Arregalei os olhos ao ver um homem entrar no beco e parar ao lado dele. Antes que eu entendesse o que estava acontecendo e pudesse gritar, ele colocou um lenço sobre minha boca e nariz com um cheiro forte. Desesperada, percebi que perdia os sentidos e desmaiava.
– Não, por favor… – Ainda murmurei, caindo nos braços de Augusto. Ele me pegou no colo e disse em meu ouvido, antes que a escuridão me envolvesse:
– Vamos para casa, Lorenza.
Ela dormia em sua cabine, enquanto o barco navegava de volta para a Ilha. Estirada na cama, continuava desacordada, seus longos cabelos loiros esparramados sobre o lençol azul. Estava mais magra, mais pálida, abatida. Mas continuava linda, suave, única.
Sentado na cadeira em frente à cama, Augusto não tirava os olhos dela. Sentia-se estranho, sem saber ao certo como agir, indeciso pela primeira vez na vida. Aquela mulher maldita mexia com ele de uma maneira incontestável, tão intensa que ele não sabia lidar com aquilo. O desejo que sentia por ela, o modo como ficara furioso quando a perdera, assustava-o. Desde novo aprendeu a assumir os negócios, a família, a Ilha. Era decidido, agia quando precisava, não vacilava. Mas agora, finalmente, ele conhecia seu ponto fraco. Era ela.
Quando Lorenza se remexeu na cama e abriu os olhos, ficou um momento confusa. Depois o viu e então se sentou rapidamente, empalidecendo mais ainda. Augusto levantou, tentando controlar a luxúria quente e perversa que o consumia. Pegou um copo com água na cabeceira, aproximou-se da cama e entregou a ela, que deveria estar sedenta após ter respirado clorofórmio. Ordenou baixo:
– Beba.
Ela olhou para ele e em volta, assustada. Mas não se mexeu. Apenas estendeu a mão e bebeu toda a água. Depois que pegou o copo e largou-o na mesinha, Augusto se voltou para ela. De pé, em frente à cama, começou a se despir. Lorenza abriu ainda mais os olhos verdes, tremendo, sem poder tirar os olhos dele, enquanto ficava completamente nu e dolorosamente ereto. Quando se ajoelhou na cama, ela murmurou:
– Augusto…
– Nada vai me impedir de foder você, Lorenza.
Ele enfiou a mão entre seus cabelos longos e segurou sua nuca. Com a outra mão, puxou com força sua blusa, fazendo os botões pularem, rasgando-a na frente. Ela deu um grito estrangulado, mas logo ele abaixava seu sutiã, deixando-o com as alças presas em seus braços e na altura da sua barriga, os seios redondos e pequenos à mostra.
– Porra… – gemeu rouco, inclinando-se sobre ela, beijando-a na boca com desejo, sua mão agarrando um dos seios, acariciando-o. Ela choramingou contra seus lábios, mas recebeu sua língua, deixou que invadisse sua boca e a deitasse na cama.
Augusto estava muito excitado. Seu pau chegava a doer, depois de um mês sem desejo por outra mulher, mas ardendo por ela. Sua mão desceu, puxando seu jeans para baixo junto com a calcinha, até suas coxas. Ela segurou seu pulso grosso, mas não o impediu de enfiar a mão entre suas pernas, seus dedos em sua vagina pequena e úmida, entre seus lábios. Tremeu quando um dedo longo entrou nela e, sem controle, deixou que a penetrasse assim, sem deixar de beijá-la nem por um segundo.
Augusto sentiu quando ela se entregou, mole e doce em seu ataque, deixando que tomasse dela tudo o que queria, retribuindo o beijo com volúpia. Mas estava desesperado, sem poder se controlar, ansioso por senti-la em torno de si, sugando-o para dentro. Largou seu cabelo, circundou sua cintura com o braço e deixou de beijá-la. Em segundos a virava na cama de bruços, puxava seu quadril para o alto e, atrás dela, tendo-a ainda com as calças emboladas nas coxas, encaixava o pênis em sua entrada macia.
Segurou-a pela nuca com uma das mãos, mantendo sua cabeça sobre a cama, seus cabelos entre os dedos. A outra estava firme em seu quadril erguido, empinado, enquanto ele a penetrava por trás na vagina. Ela gritou, muito apertada ao recebê-lo, suas unhas arranhando os lençóis. Augusto cerrou o maxilar, entrando duramente nela, buscando espaço para meter tudo, lutando para não dar vazão ao desejo absurdo que o dominava, pois senão a comeria com violência e a machucaria.
– Toma tudo, Lorenza, tudo…
– Por favor… – Ela choramingava, suspensa entre o prazer e a dor. Mas ele não podia mais parar. Largou sua nuca, enterrou os dedos em seus quadris para deixá-la na posição que queria e penetrou-a duramente, fundo, até estar todo dentro dela. Só então parou e respirou fundo, sentindo-a apertando seu pau enquanto ele latejava. – Augusto…
– Aqui é seu lugar, embaixo de mim, com meu pau enterrado dentro de você. – Disse duro, com voz rascante, quente. E então a comeu com vontade, indo e vindo dentro de sua vulva cremosa e apertada, jogando a cabeça para trás e gemendo rouco com as sensações intensas e vertiginosas que o percorriam.
Augusto se perdeu no próprio prazer. Tinha estado louco por aquilo e o descontrole veio, sem que pudesse se conter mais. Furiosamente gozou dentro dela, sem poder impedir ou lutar contra. Quando os espasmos foram passando e o langor o envolveu, percebeu que ainda estava duro e ela gemia, muito excitada, buscando o próprio prazer.
Saiu de dentro dela, virou-a para si. Ela o fitou com olhos brilhantes, pesados, suas faces vermelhas, sua respiração entrecortada. Sem tirar os olhos dos dela, segurou sua calça e terminou de despi-la completamente, até tê-la toda nua. Então abriu suas pernas e seu olhar desceu por seu corpo. Era linda. Deixava-o em um estado fora de si que o enraivecia, que parecia mexer com suas entranhas. Deitou-se sobre ela, que arfou, ansiosa. Mas não a penetrou. Beijou sua barriga e desceu mais. Até começar a lamber seu clitóris já inchado. Ela estremeceu por inteiro e agarrou seu cabelo, gemendo descontrolada.
– Augusto, ai … Ai…
Chupou o botãozinho até deixá-la a ponto de gozar. Então ergueu a cabeça e ordenou duro:
– Peça.
– Eu… O quê? – Confusa, excitada, ela o olhou, sem soltar seus cabelos.
– Peça.
– Por favor, me faça gozar… – Pediu, além de qualquer razão, toda rosada e trêmula.
– Como?
Lorenza mordeu os lábios, ficando ainda mais vermelha. Por fim murmurou:
– Dentro de mim, Augusto… Por favor…
Ele deitou-se sobre ela e, sem preâmbulos, a penetrou. Olhou enquanto ela se abria e gritava, jogando a cabeça para trás, tão estreita e molhada que pingava, mais cremosa ainda pelo esperma dele. Meteu duramente, fundo e gostoso.
– É assim que você quer, Lorenza?
– Sim… sim…
– Olhe para mim.
Ela obedeceu, suas unhas nas costas dele, movendo os quadris para receber suas estocadas vigorosas, arfando toda aberta.
– Diga que é minha. Que nunca mais vai fugir.
Ela mordeu os lábios, agoniada. Parecia dividida, suspensa entre o prazer e a dúvida. Ele parou todo dentro dela, ambos suados, colados, seus olhares um no outro.
– Diga, Lorenza. Agora.
– Sou sua, Augusto. Nunca mais vou fugir… – Murmurou com lágrimas nos olhos.
– Desgraçada. – Ele meteu nela com todo desejo alucinado que o desnorteava, enfiando os braços sob seus ombros e segurando firmemente sua cabeça, para beijá-la na boca.
E então ela começou a chorar, gemer, arrebatada por um orgasmo longo, que a fez ondular e tremer entre os braços dele. E Augusto gozou de novo, enterrado todo dentro dela, os espasmos de um dando continuidade ao do outro, suas bocas bebendo seus gemidos. Terminaram suados e exaustos. Ficaram lado a lado na cama, nus, satisfeitos, dopados. Pelo menos temporariamente estavam em paz.
A viagem de carro até o casarão da fazenda foi feita em silêncio. Quando o carro parou em frente à mansão e Augusto abriu a porta para mim, saí um tanto nervosa, buscando a casinha branca com os olhos. Como se notasse, ele explicou friamente:
– Vai ficar agora aqui.
Eu o olhei de imediato, paralisada pelo medo. Por fim, criei coragem e supliquei:
– Por favor, juro que não vou fugir. Mas me deixe na casa de antes.
– Não. – Ele fez menção de segurar meu braço, mas dei um pulo para o lado, lembrando do que acontecera a última vez que eu estivera ali, com Lucas tentando me agarrar. Meus olhos encheram-se de lágrimas e o pavor quase me fez desmaiar. – Porra, Lorenza, já falei…
Mas ele se calou, como se meu medo fosse palpável. Por fim respirou fundo e disse sério, sem tirar os olhos de mim:
– Lucas voltou para a Universidade e Mário não tocará em você. Somente eu.
Eu sabia que não tinha opções, mas mesmo assim o olhei, esperando ver se estava sendo sincero. Por fim, concordei com a cabeça e, quando ele segurou meu braço, deixei que me levasse para dentro.
O casarão lindo e enorme estava silencioso. Seguimos pela escadaria de madeira até o andar superior, até a última suíte do lado esquerdo. Era um quarto imenso, com uma cama enorme, decorado em tons escuros de madeira, muito masculino. Cortinas pesadas e de um azul cobalto estavam fechadas, deixando o ambiente na penumbra. Sobre as tábuas corridas e brilhantes do chão, um tapete felpudo e creme abafava os passos. Augusto fechou a porta e informou:
– Você vai ficar aqui, Lorenza. No meu quarto, comigo.
Eu estremeci, abraçando a mim mesma, olhando em volta. Dormiria com ele, naquela cama imensa. O desejo, apesar de nossa transa no barco, me engolfou na hora. Mas também um outro fato, que me fez virar para ele e dizer num fio de voz:
– Minha nova prisão. Suponho que ficarei trancada aqui.
– Sim, ficará. Enquanto eu estiver trabalhando e ocupado. Quando chegar, deixo você sair. – Seus olhos castanhos estavam frios. Nem parecia o homem ardente e apaixonado que me devorava naquela cama do barco. – Se quiser algo, é só tocar o interfone. A empregada a servirá. Mas não tente nenhuma besteira, Lorenza.
– Tentar o quê? – Tive vontade de rir, sem vontade. Lágrimas embaçaram minha visão. Dei-lhe as costas e caminhei até uma mesa do canto. – Estou em suas mãos, Augusto.
– É bom que saiba disso. Fique à vontade. As suas coisas que ficaram na fazenda já estão nos armários. Quer que eu peça algo para comer na cozinha?
– Não.
– Há livros e tevê aqui. Preciso ver como as coisas estão na fazenda. Mais tarde volto. Alice trará seu almoço daqui a pouco.
Virei para ele, mais controlada. Criei coragem e perguntei:
– E Thiago?
– O que tem ele? – Augusto estava imóvel perto da porta, alto e forte, seus olhos duros nos meus. Eu o temia e o desejava com a mesma intensidade.
– Depois que eu fugi, ele… Você… Você fez algo com ele?
– Está preocupada com seu maridinho? – Ele se aproximou de mim devagar. Prendi o ar, andando para trás até encostar na mesa. – Não acha que está um pouco tarde para isso?
– Eu só queria saber.
– Por quê?
Parou a minha frente. Tive que erguer o rosto para encontrar seus olhos frios.
– Por que não quero ser culpada se algo… Se algo aconteceu a ele.
Por um momento, pensei que Augusto não responderia. Podia sentir uma espécie de raiva emanando dele, desmentindo sua frieza. Nunca sabia como me portar ou o que esperar daquele homem, assim apenas fiquei quieta, imóvel, quase sem respirar. Por fim ele disse baixo:
– Nem cheguei perto dele. Mas se fugir de novo, ele vai pagar. Entendeu?
– Já disse que não vou fugir.
– Sente falta dele? Mesmo depois que ele te deu para outro homem como forma de pagamento? – Ele não me tocava, mas nem precisava. Já me sentia abalada e acuada.
– Não. – Murmurei.
– Não o quê?
– Não sinto falta dele. Vou me divorciar quando… quando tudo isso terminar.
Minhas palavras pareceram ter o poder de acalmá-lo um pouco. A tensão que o mantinha me encarando duramente relaxou e Augusto deu um passo para trás.
– Fique quietinha e espere por mim, Lorenza.
Eu não disse nada. Sem uma palavra, Augusto deu-me as costas e saiu do quarto, trancando a porta. Só então soltei o ar dos meus pulmões e respirei normalmente. Lágrimas voltaram aos meus olhos quando olhei em volta. Nunca, nem em meus sonhos mais loucos eu imaginara que algo assim pudesse acontecer comigo. Ser escrava e prisioneira de um homem. E pior, desejar loucamente esse homem.
Tentei ser corajosa, mas um misto de desespero e desejo me engolfaram. Eu teria sorte se escapasse inteira depois que tudo aquilo terminasse. Uma coisa eu sabia: minha vida nunca mais seria a mesma depois de Augusto Montês.
Jantei junto com Augusto e Mário na sala de jantar, naquela noite. Eu estava muito nervosa e não comi direito, embora Mário tenha sido educado, puxado conversa e nem por um momento tenha insinuado algo. Só o fato de Lucas não estar ali já me acalmava. Mas mesmo assim eu ainda sentia medo. De qualquer forma, tão logo acabou de comer, Mário nos deu boa-noite e se retirou.
Mais calma, fitei Augusto. Com os cabelos úmidos do banho recente, usando uma camisa azul e jeans surrados e justos, ele estava espetacular como sempre. Passou toda a noite sério e calado. Pensei se ele sorriria de verdade em algum momento, pois para mim só tinha sorrido com ironia. Naquele momento ele me olhou e se recostou na cadeira.
– Terminou de comer? – Ele perguntou, frio.
– Sim.
– Venha, vamos sair um pouco e caminhar.
Não falei nada. Ficar a tarde toda sozinha e presa no quarto tinha me deixado triste e depressiva. Saber que ele tinha minha liberdade nas mãos, o poder de dizer onde e quando eu podia ir a algum lugar me enchia de ódio dele. Tive vontade de negar, só para contrariá-lo. Mas me sentia sufocar ali dentro.
Saímos até a varanda. Sem preâmbulos, ele segurou minha mão e desceu os degraus. Só me restou acompanhá-lo, enquanto seguíamos pelo imenso pátio gramado que ficava em frente à casa. Andamos em silêncio, eu muito consciente dele perto de mim e de seus dedos entrelaçados aos meus. Por um momento devaneei, respirei o ar puro da noite e sonhei que não havia problemas entre a gente, eu não era casada, nem sua escrava sexual. Éramos apenas um casal passeando de mãos dadas em uma bela noite, felizes um com o outro.
Quase ri com aquele pensamento tolo. Aquilo nunca aconteceria. E eu devia dar graças a Deus pela boa vontade dele ao menos em me deixar sair e caminhar um pouco. Pois agora era meu dono, o senhor do meu destino. Novamente a raiva me engolfou e, daquela vez, não suportei seu toque. Puxei a mão e dei um passo longe dele ao chegarmos perto de umas cercas em volta de um local onde os cavalos eram treinados. Estava tudo silencioso e na penumbra. Encostei na cerca, segurando-a com força.
– O que foi isso? – Augusto parou ao meu lado, me olhando.
– Nada.
Ele segurou meu rosto e me fez olhá-lo. Estava sério, com cenho franzido.
– Responda direito, Lorenza.
– Não quero andar de mãos dadas com você! – Exclamei, irritada, no meu limite.
– Não importa o que você quer.
– O que é, vai me obrigar a isso também? Será que não sou livre para escolher mais nada, nem ao menos isso? Já não basta tudo o que fez?
– O que eu fiz? Exigir o pagamento que uma puta e um ladrão me devem?
– Não te devo nada! – Falei alto, com raiva pois sentia vontade de chorar toda vez que ele me descontrolava. – Quantas vezes tenho que dizer que eu não participei do roubo?
– Chega, Lorenza.
– Sim, senhor. Esqueci que devo ser obediente, que sou uma prisioneira aqui. – Estendi minha mão, segurando-me para não piscar e deixar as lágrimas escorrerem. – Quer minha mão? Aqui está, senhor.
O olhar dele era de morte. A fúria o consumia rápido, como uma labareda. Assim como o desejo.
– Já que está tão disposta, quero, sim, sua mão. – Ele se recostou de costas na cerca, sem deixar de me encarar. – Aliás, as duas. Abra a minha calça.
– É sempre assim, não é? – Lutei contra os sentimentos contraditórios que me deixavam trêmula. – Sempre termina uma discussão com sexo.
– Esqueceu que é por isso que está aqui? Agora faça o que mandei.
Abaixei os olhos, derrotada. Ele me obrigaria e eu faria a vontade dele por bem ou por mal. Jurei a mim mesma que me manteria fria daquela vez. Sem dizer mais nada, fui pra a frente dele e levei as mãos até o botão do seu jeans. Só de tocar nele, comecei a tremer. Mas lutei bravamente para me concentrar. Abri o botão. Segurei o zíper e o desci devagar. Na penumbra, com a luz vindo de trás dele, eu não podia ver muito bem. Mas mesmo assim abri sua calça.
– Desça. Com a cueca.
Engoli em seco. Tentei desviar o pensamento enquanto obedecia, mas meus dedos roçaram os pelos e a carne dura de suas coxas. Meu coração bateu mais rápido. Mordi os lábios.
– Alguém pode nos ver. – Ainda murmurei. Ele nem se importou.
– Sabe o que fazer, Lorenza. – Sua voz era rouca, dura.
Sim, eu sabia o que ele queria. Ajoelhei-me no chão gramado e não aguentei mais, olhei para ele. Era magnífico, ainda semiereto, banhado pelo luar. O desejo me engolfou mesmo sem querer, pesado e denso, me fazendo sentir bem consciente dele. Meus seios estavam duros e minha vulva latejou levemente.
Acariciei suas coxas musculosas, subi as mãos por elas. Podia sentir seus olhos penetrantes em mim, mas fugi deles. Se eu os fitasse, estaria perdida de vez. E então meus dedos envolveram seu pênis e eu o masturbei suavemente, tocando-o como eu queria, correndo o dedo em suas bolas, sentindo como ele era gostoso e quente. E lambi devagar a ponta, de onde já saía uma gota. O gosto dele, delicioso, viril, mexeu com meu controle. E aí fiquei realmente perdida, esquecida de lutar. Abri os lábios e o suguei para dentro, chupando-o. E ele gemeu, segurando-se firme na cerca, sem me tocar.
Senti-o em toda minha boca e língua, até o fundo da garganta. Deslizei os lábios em seu comprimento, para frente e para trás, excitada, espalmando minhas mãos em suas coxas para me apoiar, sem me importar com mais nada. Ele era muito gostoso e crescia mais, se tornava grosso, me preenchia toda. Me tornei mais faminta, deliciando-me com ele, deixando-o louco, nas minhas mãos e boca.
Por fim Augusto me agarrou e me levantou, puxando-me para seus braços, beijando minha boca. Eu o abracei também, pelo pescoço, colando-me inteira nele, roçando-me contra seu pênis duro e longo, toda molhada e trêmula. As mãos dele já subiam por minhas pernas e erguiam minha saia jeans, rasgando minha calcinha sem nenhum esforço. Os farrapos dela ficaram penduradas em uma das minhas coxas, enquanto ele me segurava sob o bumbum e me erguia de pernas abertas para ele. Se virou e logo me encostava na cerca e eu cruzava meus tornozelos em suas costas.
– Daqui a pouco não terei mais roupas… – Murmurei, perto do seu queixo. – você rasga todas…
– Eu compro outras.
Senti-o me abrir e entrar firme e apertado em mim. Gemi em sua boca e Augusto me penetrou com força até caber todo dentro e começar a me comer com vontade, sem dó, do jeito que me enlouquecia. Nossas bocas não se deixavam, assim como nossos sexos, unidos, fazendo barulhos. Segurou-me sob as coxas com uma das mãos, amparando-me contra a cerca com suas pernas, enquanto deslizava a outra mão grande por minha bunda, apertando-a, acariciando-a.
Engasguei quando seu dedo brincou onde seu pênis me devorava, molhando-se ali e então subia até meu outro orifício mais acima, apertado e completamente virgem. Quando o rodeou com o dedo, eu me assustei e descolei os lábios, olhando-o e balançando a cabeça que não. Augusto apenas sorriu, deslizou os lábios por meu pescoço, mordiscou de leve minha orelha e murmurou:
– Você me pertence. E tomo o que quiser, Lorenza. Inclusive aqui.
– Não, eu… Eu não…
– Você vai gostar.
Tentei negar, fiquei nervosa, mas estava excitada demais, presa demais por ele para poder fazer alguma coisa. Assim, fechei os olhos e deixei que lambesse minha garganta enquanto seu dedo brincava naquele lugar proibido e ele devorava minha vagina com força, deixando-me cada vez mais esticada, alucinada. E então o dedo entrava em mim e as sensações foram tão extraordinárias que gritei, ondulando em uma orgasmo intenso, agarrando-me aos cabelos dele, toda preenchida e penetrada. E Augusto gozou também, fundo, rouco, mordendo meu pescoço, gemendo em minha pele.
Quando tudo acabou, fiquei mole, lânguida nos braços dele. Com delicadeza ele tirou o dedo e saiu de dentro de mim, depositando meus pés no chão. Abaixou minha saia e então se arrumou. Encostada na cerca, olhei para ele, ainda maravilhada com tudo aquilo.
Augusto, já pronto, fitou-me com intensidade, muito sério. Então me estendeu a mão. Sem uma palavra, entrelacei meus dedos nos dele e voltamos de mãos dadas para o casarão.
Episódio 6 – As respostas
Eu estava há uma semana na fazenda, desde que fora trazida de volta. Minha vida entrou em uma rotina de ficar o dia todo sozinha, trancada dentro do quarto, saindo apenas para almoçar quando Augusto chegava e depois para jantar. Então ele me levava para dar uma volta na fazenda, a pé ou a cavalo, mostrando-me as instalações, explicando como tudo funcionava ou apenas passeando. Eu me via desesperada por ele, esperando aquelas ninharias como se daquilo dependesse a minha vida. Pois durante minha solidão nem tevê, música ou livros me distraíam mais. E eu ficava depressiva, pensando, muitas vezes chorando.
O pior de tudo era que eu adorava as noites. Adorava sair com ele, só nós dois, o modo como muitas vezes ele entrelaçava os dedos nos meus ou me abraçava, ou mesmo o fato de estar mais calmo e relaxado, sem toda a agressividade de antes. Não chegava a se abrir comigo, sorrir ou dizer algo íntimo, mas me explicava coisas da fazenda, conversava banalidades ou sobre algum gosto nosso que coincidia, fosse sobre comida, bebida, livros, filmes ou livros.
Mas o melhor de tudo mesmo era quando voltávamos ao quarto. Fazíamos amor todas as noites, até mais de uma vez. Ficávamos horas nos beijando e acariciando, conhecendo nossos corpos nos mínimos detalhes, a ponto de não saber onde começava um e terminava o outro. Transávamos na cama, na mesa, no chão, na poltrona, no chuveiro, de pé, em tantos locais e posições que nunca julguei ser possível. De manhã bem cedo eu acordava com ele chupando meu mamilo ou meu clitóris, ou entrando em mim, e assim nosso dia começava, ardendo, entre gozos e gemidos. E dormíamos sempre juntos, sob o edredom macio, muitas vezes abraçados.
Eu estava viciada nele. No seu cheiro delicioso, na sua voz, no seu corpo grande e musculoso, em tudo que se referia a ele. Passava o dia agoniada, contando as horas para que ele chegasse logo, como se minha vida só começasse naqueles momentos. Então me dei conta do que estava acontecendo e pensei na Síndrome de Estocolmo. Só podia ser isso. Eu criava um vínculo com meu “sequestrador”, pois passava a depender dele e viver em sua função. O resto da minha vida se anulava.
Assim, comecei a ter oscilações de humor, que acabaram afetando inclusive meu apetite. Ficava depressiva presa naquele quarto, privada da minha liberdade e da minha vida, já que sempre fui ativa, trabalhei, fiz minhas coisas; Quando Augusto chegava, eu era tomada pela paixão e pela felicidade; e então o odiava, pois sabia que tudo era culpa dele. Aos poucos, fui ficando sem vontade de comer e de fazer outras coisas, a não ser ficar deitada.
No primeiro dia em que fiquei assim, ele pediu jantar no quarto, ficou comigo, pôs uma música do Chico Buarque que gostávamos, tentou puxar conversa. Por incrível que pudesse parecer, me deixou em paz e, pela primeira vez desde que eu estava ali, não tentou ter relação sexual. Só me abraçou e dormimos assim. Quando acordei, ele já tinha saído.
Passei o dia mal e não comi nada. Depois que tomei banho, pus uma camisola de algodão e me enfiei na cama. Cochilava e acordava, até que Augusto chegou. Fingi que dormia e ele foi para o banheiro. Saiu apenas de short preto e sentou-se na beira da cama. Falou baixo:
– Lorenza, acorde.
Abri os olhos, sentindo um misto de raiva e alegria por vê-lo. Irritada, encarei-o em silêncio.
– Alice disse que você não quis almoçar.
– Não estou com fome.
– Levante-se e troque de roupa. Vamos jantar.
– Não quero.
– Não estou perguntando. – A voz dele estava raivosa. O que fez minha própria raiva explodir. Sentei na cama, afastando o cabelo do rosto, dizendo furiosa:
– Claro que não, você só ordena, não é? Coma, Lorenza! Acorde, Lorenza! Abra as pernas, Lorenza! Quando essa merda de pagamento acaba? Quando você vai me deixar em paz? Ou vou ter que ficar aqui até morrer, presa nesse maldito quarto?
Augusto ficou imóvel, seus olhos castanhos fixos em meu rosto, sua expressão amarrada como sempre. Por fim, falou com frieza:
– Quando eu decidir.
– Claro, você é o Senhor da Ilha! O Senhor de Tudo! Por que não acaba com essa merda de uma vez? Por quê…
– Cale a porra dessa boca! – Ele segurou meu braço e me puxou para perto. – Vai descer comigo e comer nem que eu tenha que enfiar a comida pela sua goela abaixo!
– Ou o quê? Vai me bater? Vai me matar? Vamos lá, pelo menos terei algo para fazer além de ser prisioneira aqui durante o dia e sua puta à noite!
– É tão ruim que você goza como uma puta mesmo e ainda pede mais!
– O que você esperava? Fico o dia inteiro sozinha! – Gritei, fora de mim, tentando me soltar. – A única pessoa que vejo e falo é você, pois até Alice e Mário se afastam e mal falam comigo! Sou obrigada a depender de você, a buscar sua companhia, não por que eu escolhi assim!
Augusto me soltou e passou os dedos entre os cabelos escuros, despenteando-os. Parecia com raiva também, como se procurasse se controlar. Mas seus olhos não saíam de mim, queimando. Por fim, algo o venceu, pois me puxou de novo e avisou:
– Vou te dizer só mais uma vez, Lorenza, você é minha e vai ser pelo tempo que eu quiser. Quer uma distração? Quer um castigo para aprender como falar com seu dono?
– Desgraçado! Eu te odeio!
– Já sei disso!
Esperneei e gritei quando ele me obrigou a deitar em seu colo, atravessada, de bruços, levantando minha camisola. Arregalei os olhos, sem acreditar quando senti a primeira palmada pesada e dura em minha bunda. Tentei fugir, mas Augusto me segurou firme e bateu de novo.
– Não! Pare! – Berrei, chorando, sentindo como doía e queimava, como sua mão era pesada. Meus cabelos caíam por meu rosto, colavam-se em minha boca e meu rosto molhado, enquanto eu tentava escapar em vão. A terceira palmada foi menos dura, mas eu estava apavorada, fora de mim. Comecei a implorar: – Não, por favor, por favor…
– Você não me odeia, Lorenza? Odeia quando toco em você? Odeia quando dorme em meus braços? Responda!
– Não! Não odeio! – Gritei rouca, soluçando, levando as mãos ao rosto sobre a cama e chorando desesperadamente. Murmurei: – Eu queria odiar você, mas não odeio…
Ele parou, um de seus braços sobre as minhas costas, a outra mão sobre a carne avermelhada e quente da minha bunda. No quarto o silêncio só era quebrado pelo meu choro baixo, abafado pelas mãos. Ficamos assim por segundos, minutos, que pareceram horas, até que me senti exausta até para chorar. E então, lentamente, a mão dele acariciou minha carne sensível e arredondada. Mordi os lábios, de olhos fechados.
Augusto percorreu suavemente o contorno da minha bunda e pude sentir que ele endurecia contra o meu quadril. A lascívia pura e densa percorreu minhas veias, mesmo contra tudo que eu queria. Aquele desejo absurdo, que só aumentava com o tempo era minha perdição. Eu estava completamente dominada e obcecada por ele e acho que o que mais me desesperava era isso. Como eu conseguiria retomar minha vida depois dele?
Devagar ele me pegou e me deitou de bruços sobre a cama. Então veio por trás, desceu minha calcinha pelas pernas e passou a beijar e mordiscar meu bumbum, nos mesmos lugares onde havia batido. Abriu-o suavemente e estremeci por inteiro quando sua língua percorreu o vão entre ele, de cima abaixo, até minha vulva. Passou a me lamber toda, deixando-me louca, arrebatada, suspensa.
Agarrei o lençol e gemi baixo, em uma verdadeira gangorra emocional. Eu não sabia mais quem eu era, o que queria, o que seria de mim. Passava do ódio ao tesão em questão de segundos, oscilava nas mãos dele sem saber a qual sentimento me agarrar, qual eu precisava ou desejava. Naquele momento, o medo e a raiva estavam de lado, enquanto o desejo e a paixão me consumiam, me dilaceravam.
Augusto deixou-me toda molhada, ansiosa, arrepiada. Então subiu os beijos por minhas costas, mordiscou minha nuca e senti seu pênis duro deslizando entre meus lábios vaginais, abrindo-me e entrando apertado em mim. Colou o corpo forte no meu, seus pelos deixando minha pele mais sensível, seus músculos me dominando, seus dentes em minha orelha. Penetrou-me docemente, fundo, enquanto murmurava em meu ouvido:
– Só vou deixar você ir quando eu me cansar disso, Lorenza. – Parou quando estava todo encaixado dentro de mim, grosso e longo, e eu tremia em seus braços. – Quando eu suportar imaginar outra mulher me tendo todo dentro dela como você.
Abafei meu grito contra o lençol quando ele começou a me penetrar fortemente, do jeito que gostava e que sabia que me deixava louca. Empinei-me, tentei abrir mais as pernas e logo sentia sua mão sob meu corpo, descendo por minha barriga, espalmando-se em minha vagina. A cada estocada eu roçava em sua mão e ondulava de prazer, gemendo baixinho, sentindo meu clitóris duro e inchado.
Parecia não ter fim. Augusto me pegou de jeito, me deixou presa e equilibrada pelo prazer perverso que era pertencer a ele, não apenas de corpo, mas de alma. Percebi naquele momento exaltado que eu o queria com todas as forças, que nunca foi só sexo, que desde que o vi pela primeira vez eu soube que ele ia mudar minha vida. Choraminguei desesperada ao me dar conta que estava completa e irremediavelmente apaixonada por ele e mais perdida do que nunca.
Ele me torturou, me devorando até o ponto que eu ficava prestes a gozar, então parava, me segurava com firmeza, murmurava palavras pornográficas em meu ouvido, saía de dentro de mim e só brincava com meu clitóris. Quando eu pensava que não suportaria mais, ele tirava a mão e beijava minha nuca, minhas costas, minha bunda. Subia de novo, deitava-se sobre mim e me penetrava duramente, arrancando gemidos e lamentos da minha garganta.
Por fim, quando o prazer parecia insuportável, ele saiu e me puxou para seus braços. Seu olhar era intenso, seu rosto contorcido pelo tesão. Recostou-se quase sentado sobre os travesseiros e me fez sentar de frente sobre ele, ajoelhada aos lados de seu quadril. Segurou com firmeza minha cintura e eu desci sobre ele, que me penetrou até o fim. Seu olhar quente, escuro, deixou-me ainda mais arrebatada. Suas mãos me fizeram mover sobre ele, enquanto me puxava mais para perto e assim enfiava um mamilo na boca, chupando-o duro enquanto eu o cavalgava e enfiava meus dedos em seus cabelos negros e grossos.
– Ai, não vou aguentar… – Choraminguei, muito molhada e arrebatada.
Ele soltou meu mamilo e disse perto da minha boca:
– Goze pra mim.
E então me perdi de vez. Gemi, chorei, arfei num orgasmo arrebatador, que pareceu explodir em meu ventre e se espalhar quente por meus membros, por todo meu corpo. E todo tempo Augusto me observou, lutando para controlar seu próprio prazer, até que me acompanhou e gemeu contra meus lábios, rouco e gostoso. Eu o abracei, enquanto resquícios do gozo me faziam estremecer. E assim ficamos, unidos, colados, suados.
Na sexta-feira Augusto se irritou quando Lucas veio passar o final de semana em casa e trouxe seus colegas doidos da faculdade sem avisar. Eram dois rapazes e três garotas, todos barulhentos, correndo para a piscina, fazendo algazarra em busca de bebidas. As garotas seminuas em biquínis que mais mostravam do que cobriam ficaram se jogando em cima dele e de Mário e Lucas disse que faziam de tudo, que poderiam fazer festas quentes por ali. Mas tudo o que ele pensava era em Lorenza, presa em seu quarto.
Primeiro porque sabia que ela temia Lucas, apesar de poder controlar o irmão. E depois por que não a queria no meio daquela gente louca e ela ficaria ainda mais agoniada sem os passeios deles. Para piorar a situação, o detetive que contratara para saber do passado dela resolveu escolher aquele dia para aparecer. Enquanto os jovens gritavam e corriam pelo quintal com Lucas, Augusto levou o senhor para seu escritório e conseguiu uma relativa paz ao fechar a porta.
Depois de se acomodarem e tomarem uma bebida, Ronaldo Santos estendeu a ele um envelope com os resultados da investigação e explicou, enquanto Augusto dava uma olhada nos papéis:
– Parece que a moça foi sincera com o senhor. Fui desde o local em que ela nasceu até os que viveu com a mãe e o marido, falei com antigos vizinhos, colegas de trabalho, todos que pude encontrar e foram unânimes de que era uma moça trabalhadora, quieta, até tímida, mas muito simpática. Parece que a mãe era meio doida, vivia mudando de lugar e arrumando amantes. A menina às vezes era tirada de uma cidade antes de terminar o ano letivo e acabava repetindo a mesma série no ano seguinte. O último amante da mãe cismou com ela, principalmente quando bebia, e ela se refugiava na casa de uma vizinha. Parece que o cara e a mãe dela voltavam bêbados de uma festa e sofreram um acidente de carro. A mãe morreu, o cara ficou no hospital, mas não se machucou muito. Nessa época a menina tinha dezessete anos e estava de namorico com Thiago Prado, um rapaz de passagem pela cidade. Dizem que ele a convidou para se mudar para o Rio com ele e ela, com medo do padrasto quando esse saísse do hospital, aceitou a proposta do rapaz. Aos dezoito anos se casou com ele. Muitos confirmaram que era caseira, queria terminar os estudos e se estabilizar, mas o rapaz parecia a mãe dela, não parava em um lugar. Na verdade fugia das encrencas em que se metia. Nada comprova que ela sabia dessas encrencas, mas uma colega de trabalho de Lorenza, dos últimos lugares em que visitei, contou que ela andava desconfiada do marido e cansada da vida errante. Falava em se separar e conseguir um canto onde poderia viver em paz. Logo depois disso teve o problema com o Bingo e eles vieram para cá. Como vê, senhor Montês, nada aponta um comportamento errado ou de armações da moça. Chego à conclusão de que foi vítima tanto da mãe quanto do marido.
Quando o homem terminou de falar, Augusto continuou um momento quieto, apenas lendo os papéis. Por fim se levantou, pagou o que devia a ele, trocou algumas palavras corteses e acompanhou-o até a porta. Estava voltando, quando Mário surgiu e indagou:
– E então? Agora acredita nela?
– Como você sabe que o detetive não trouxe provas de que é uma malandra como o marido? – Perguntou, muito sério.
– Só de olhar para ela dá pra ver que a menina é inocente, Augusto. – Mário sorriu e bateu de leve em seu ombro ao passar por ele. – Por que não para de arrumar desculpas para mantê-la aqui e não admite que está louco por ela?
Augusto teve vontade de bater no irmão, mas o deixou sair e voltou ao seu escritório, correndo os dedos entre os cabelos. A realidade que ele se recusara a enxergar ficou bem clara diante de seus olhos e ele se deu conta de como fora injusto com Lorenza. Tratara-a como uma puta, usara palavras e gestos de um tirano com ela, e agora descobria que ela realmente nada tinha a ver com as armações do marido. Não era à toa que ela gritara mais de uma vez que o odiava.
E agora? Poderia se desculpar, ele, que nunca se abaixava perante ninguém? Poderia deixá-la ir? Ele sabia que ainda não estava preparado, que se sentia muito obcecado por ela para permitir que o deixasse. E seu maldito orgulho, que o mantinha e o controlava, nunca o faria se humilhar também. Por fim, pegou o telefone, chamou seus advogados e tentou resolver tudo da única maneira que sabia, se impondo e dando a palavra final.
Eu escutava a algazarra lá fora. Afastei as cortinas e vi Lucas na piscina com outros jovens. Rapidamente fechei-a e voltei ao centro do quarto, com asco ao lembrar daquele rapaz mimado e egocêntrico tentando me agarrar. Agora eu é que não queria mais sair daquele quarto. Naquele momento, a porta abriu e Augusto entrou, me olhando sério e compenetrado. Geralmente eu só o via na hora do almoço e me surpreendi. Ele deixou a porta aberta e falou diretamente:
– Venha comigo, Lorenza.
Arregalei os olhos. O medo serpenteou dentro de mim e tudo que consegui foi balançar a cabeça e murmurar:
– Não, por favor. Me deixe aqui.
Esperei sua raiva, mas o semblante dele se suavizou. Deu alguns passos largos até mim, segurou meu rosto e me fez fitar seus olhos. Suas palavras foram baixas, sem agressividade:
– Não estou chamando você para descer e se juntar ao meu irmão e seus amigos. É um assunto do seu interesse, em meu escritório.
Tentei descobrir o que era, mas sua expressão estava indecifrável. Mesmo assim, notei algo diferente nele, que não soube explicar. Ansiosa, fiz que sim com a cabeça.
Augusto segurou minha mão e saímos dali. Estávamos descendo os últimos degraus, quando Lucas entrou na sala apenas de sunga de praia, todo animado com um copo de uísque na mão. Parou surpreso ao nos ver e seus olhos escuros brilharam para mim, enquanto exclamava:
– Não sabia que havia uma convidada tão ilustre aqui! Como sempre, escondendo o jogo, não é, mano? Bem-vinda, cara Lorenza! Quer se juntar a mim e meus amigos na piscina?
– Vou falar só uma vez e é bom você prestar atenção, garoto. Chegue perto dela e vai tomar a surra que eu já devia ter te dado há muito tempo, entendeu? – Augusto olhou friamente para o irmão caçula e algo em seu tom deve ter alertado o rapaz de que não era brincadeira, pois o sorriso foi sumindo do seu rosto.
– Calma, mano. Eu só…
– O recado está dado. Pode voltar pra sua turma.
Lucas ficou vermelho, sem encarar o irmão. Apenas acenou a cabeça e se afastou, sem dizer uma palavra. Fiquei espantada com o modo como o obedeceu sem pestanejar.
Augusto não soltou minha mão. Entramos em um escritório elegante, bem masculino, e ele me indicou um pequeno sofá a um canto. Enquanto eu sentava, ele foi até o bar e se serviu de uma dose de uísque.
– Quer beber alguma coisa?
– Não. – Cruzei os dedos sobre o colo, sem poder tirar os olhos dele. Criei coragem e perguntei: – Por que me trouxe aqui?
Seus olhos castanhos, muito penetrantes, não saíam dos meus, enquanto ele tomava toda a dose de uma vez. Largou o copo no balcão, recostou-se nele, cruzou os braços no peito e continuou a me olhar. Estava muito sério e compenetrado. Estremeci um pouco, pois ele me afetava muito. A ansiedade me engolfou, assim como aquela paixão que sempre me acompanhava e que se tornava ainda mais intensa quando estava perto dele. Por fim, falou baixo:
– Você não me deve mais nada, Lorenza. Considere sua dívida comigo paga.
Fiquei imóvel. As palavras pareciam ter vindo de outro lugar, perdidas naquela sala. Não pude acreditar. Por fim, abri a boca e gaguejei:
– Quer dizer que … Que eu …
– Está livre.
Esperei a alegria e o alívio. Mas o que me inundou foi uma dor tão absurda, que foi como se eu tivesse tomado um soco. Pisquei, com medo de chorar ao me dar conta que tinha acabado. E isso significava sair dali. E ficar longe dele.
– Não vai comemorar? – Augusto parecia bem controlado, até frio.
Tentei ser como ele. Pelo menos fingir que estava feliz, mas apenas mordi os lábios, sem saber o que fazer. Por fim, consegui perguntar:
– Você encontrou o rapaz que fugiu com o dinheiro?
– Não.
– Então … – Calei-me e desviei o olhar, lembrando de suas palavras “A dívida será paga quando eu cansar de você”. Lembrei de como nos amamos de manhã, sob o edredom, sem pressa e gostoso. Podia jurar que ele me desejava, que me queria com uma intensidade que poderia ser equiparada à minha, mas agora não tinha certeza de nada. A conclusão a que podia chegar era a de que realmente se cansara de mim.
A vontade de chorar retornou, junto com aquela dor terrível, que me corroía. Percebi que não estava preparada para deixá-lo. Aquele mês em que fugi e fiquei longe dele foi o pior da minha vida, sem conseguir dormir e comer direito, sentindo saudades, desejando-o loucamente. Mas lutei para me manter neutra, fingir que estava calma.
Fiquei com raiva de mim mesma, por amar aquele homem que me fez de prisioneira, que me usou mesmo eu sendo casada, que me fez desfilar pela fazenda como sua puta, inclusiva na frente do meu marido. Eu só podia ser doente, para preferir ficar com ele mesmo assim a ter minha vida e liberdade de volta. Não conseguia entender mais nada, nem a mim mesma.
Augusto me observava calado. Consegui olhá-lo e perguntar:
– Devo ir embora agora?
– Gostaria de resolver umas coisas com você antes.
– O quê?
– Vou libertar Thiago Prado. Ele está sendo trazido aqui, para ser informado. Um barco o levará para fora da Ilha.
Concordei com a cabeça, aguardando.
– Você vai embora com ele?
A pergunta de Augusto foi quase agressiva. Seu olhar queimava. Balancei a cabeça.
– Não. Se puder, prefiro ir em outro barco.
– Pensei que talvez gostariam de sair juntos daqui. Afinal, ainda são casados.
– Só agora você se importa com isso? – Perguntei com raiva, mas logo tentei me controlar. Torci as mãos no colo. – Já disse que vou me divorciar dele. Depois de tudo que aconteceu, eu… O que você quer, Augusto? Quer se livrar de nós dois ao mesmo tempo, o mais rápido possível?
– Não. Ele vai sair daqui hoje, de qualquer jeito. Você pode escolher, Lorenza.
– Como assim? – Franzi o cenho.
Augusto descruzou os braços e veio em minha direção. Meu coração acelerou loucamente. Ele segurou meu braço e me fez levantar, bem perto de mim, seus olhos intensos mergulhados nos meus.
– Você pode ficar ou ir, a escolha é sua.
– Ficar … Na Ilha? – Murmurei.
– Comigo.
Não podia acreditar que tinha ouvido direito. Sondei seu olhar, tremendo.
– Está dizendo … Mas pensei …
– Pensou o quê?
– Você disse que me deixaria ir quando enjoasse de mim.
– Acha que enjoei de você? – Sua mão continuava firme em meu braço. Eu me sentia pequena perto dele, devido aos seus ombros tão largos e seu olhar tão escuro. A outra mão dele segurou a minha e a fez se espalmar sobre seu pênis, completamente duro dentro da calça jeans. Estremeci e mordi os lábios, o que fez seus olhos semicerrarem mais. – Isso é o que faz comigo, só por estar perto de mim, Lorenza. Posso garantir que não enjoei de você.
Fui atacada por diversos sentimentos, todos intensos, que me consumiam. Mas o desejo e o amor que eu sentia por ele, foram mais fortes do que tudo. Quis ser controlada, fingir, fazê-lo pagar por tudo que me fazia sofrer e sentir, mas estava muito além disso. Muito afetada para conseguir até pensar com clareza. Assim, apenas olhei para ele e fiz o que eu queria. Fiquei na ponta dos pés e o beijei.
Augusto puxou-me para seus braços e abriu os lábios nos meus. Sua língua entrou em minha boca, buscou a minha, me devorou com desejo e paixão. Eu o agarrei como se minha vida dependesse disso, beijando-o com todo amor que eu sentia, com um medo absurdo de nunca mais beijá-lo, nunca mais estar assim com ele.
– Fique comigo, Lorenza. – Ele agarrou meu rosto com as duas mãos, seu olhar autoritário e quente no meu.
– Sim, eu fico… – Murmurei rouca e nos beijamos de novo, cheios de desejo, com aquela atração intensa nos envolvendo.
Fomos interrompidos por batidas na porta. Augusto beijou de leve meus lábios, olhou-me e acariciou meus cabelos. Então deu um passo para trás.
– Eles chegaram.
– Quem? – Confusa, eu o vi me soltar.
– Meus advogados e seu ex-marido. Vamos resolver tudo de uma vez.
Ele foi até a porta e abriu-a. Alice informou que os convidados estavam ali e Augusto mandou-os entrar.
A primeira pessoa que vi foi Thiago. Eu o imaginava fraco, magro, sofrido, mas ele estava mais forte e bronzeado, parecendo até mais adulto. Olhou-me com olhos arregalados, cheio de culpa, sério como nunca o vi. Entrou como se sentisse vergonha, seu olhar indo ao chão, um tanto cabisbaixo. Dois homens o seguiram, um senhor de terno e um típico fazendeiro forte, com o chapéu na mão. Depois que todos entraram, Augusto foi direto:
– Não vou me estender muito. Thiago Prado não tem mais nenhuma dívida comigo. Vai pegar suas coisas e acompanhado pelo meu capataz, Rodrigo Camargo, vai ser levado a um barco com destino ao Rio de Janeiro. – O capataz, com o chapéu na mão, concordou.
Thiago olhou para Augusto e depois para mim. Pareceu criar coragem e perguntou:
– E a Lorenza?
– Ela fica. – Augusto foi frio, mas olhava para o rapaz duramente.
– Mas … Ela não teve culpa de nada! – Thiago ficou corado, suplicante. – Eu juro, fui eu que armei tudo e …
– Eu sei. – Augusto fitou meus olhos.
– Eu quero ficar. – Falei baixo. Mas não senti vergonha. Encarei Thiago, que ficou ainda mais vermelho.
– Para não termos dúvidas, meu advogado aqui presente preparou os papéis para dar entrada no divórcio de vocês. Leiam com calma e assinem.
Nossos olhares se encontraram. Eu sabia que se recusasse, ele me mandaria embora com Thiago. Mas eu não recusaria. Concordei com a cabeça.
Tudo foi feito o mais rápido possível. Thiago não lutou contra, mas antes de sair, olhou-me com mágoa e falou:
– Eu sei que te devo desculpas, mas acho que no final das contas, deve me agradecer por tudo o que aconteceu. Parece feliz.
Não respondi, embora me sentisse mal, apesar de tudo. Depois que eles saíram, Augusto fechou a porta, veio para perto de mim. Segurou meu queixo e me fez olhá-lo.
– Arrependida?
– Não. É que tudo foi tão… – Lágrimas vieram aos meus olhos, mas respirei fundo. – Você acredita mesmo que não tive culpa no roubo?
– Sim, acredito. Sei que devo me desculpar pelo modo que a tratei. Mas desde que meu pai morreu e assumi essa fazenda, com 18 anos, aprendi a ser duro e a ter as coisas a minha maneira, só assim consegui manter os negócios da minha família e essa Ilha próspera, sem as violências, drogas e os crimes da cidade grande. Eu realmente achava que você era culpada. E desejava tanto você, que essa foi a chance que tive de fazê-la minha.
Meu coração batia forte. Concordei com a cabeça, pois não conseguia ter raiva dele. Por incrível que pudesse parecer, eu o entendia.
– E agora eu … Vou precisar conseguir outro trabalho, um lugar para morar e …
Augusto franziu o cenho. Dominador, puxou-me para seus braços e segurou meu cabelo na nuca. Olhou minha boca e depois meus olhos.
– Do que você está falando?
– Vou ficar na Ilha. Preciso me …
– Tudo que precisa está aqui.
– Mas não entendi bem, Augusto. Você disse que eu estava livre, que não era mais prisioneira aqui.
– E não é. Vai morar comigo aqui. Como minha mulher.
Beijou de leve meus lábios. Suas mãos desceram por minhas costas, acariciaram meu bumbum, colando-me mais a ele. Um tanto nervosa e excitada, quis entender tudo, pois parecia sonhar:
– Sua mulher?
– Sim. Até o divórcio sair. Então podemos falar em casamento, se você fizer questão disso. – E beijou minha boca.
A felicidade me engolfou e eu o agarrei com força, cheia de amor e desejo. Não pude pensar ou me dar conta da dimensão de tudo aquilo, pois os sentimentos violentos já me dominavam e me deixavam moldada por ele, completamente entregue.
Nos beijamos com paixão. Em segundos ele arrancava minhas roupas e eu as dele. Nus, nos acariciamos, nos tocamos e mordemos. Ele me fez deitar no sofá e sugou meus mamilos, seus dedos me abrindo, deixando-me toda molhada. Desceu a boca por meu corpo e enfiei os dedos em seus cabelos quando chupou meu clitóris gostosamente, penetrando-me com seu dedo, deixando-me enlouquecida de prazer.
Gemi, me abrindo para ele, estremecendo. E Augusto me torturou assim, com a boca e o dedo, até me deixar a ponto de gozar. Só então subiu por meu corpo com os olhos ardendo e um sorriso safado nos lábios. Foi o primeiro sorriso de felicidade que vi no rosto dele e senti um baque dentro de mim. Me vi sorrindo de volta, abraçando-o com força, beijando seu queixo, seu maxilar, seu rosto, sua boca. E recebendo sua língua faminta, enquanto ele segurava meus joelhos para os lados e entrava duramente em mim.
Começou a me comer assim, até ir bem fundo, colado, grosso, muito gostoso. Gemi em sua boca, desci as mãos por seus ombros e peito, puxei-o para mim, pois eu o queria mais do que tudo, eu o queria todo, para sempre.
Augusto me segurou com firmeza e me olhou nos olhos, penetrando tudo, saindo um pouco e mergulhando de novo dentro de mim. Murmurou rouco:
– É isso que você quer, Lorenza? Ficar assim comigo, até o fim dos nossos dias?
– Sim…
– Diga.
– Sim, Augusto. – Beijei seus lábios e olhei seus olhos, emocionada. – Quero ser sua para sempre, só sua.
– Por quê?
– Por que eu te amo. – Murmurei.
O semblante dele se tornou mais intenso. Seu corpo devorou o meu com dureza, volúpia.
– Diga de novo.
– Eu te amo.
– Porra! Goze para mim, gatinha…
E eu gozei, ondulando sob suas arremetidas brutas e deliciosas, até que ele gemeu rouco e me acompanhou. E no meio de toda aquela paixão vertiginosa, seus olhos encontraram os meus e ele falou de uma maneira quente e profunda, para que não restasse dúvidas:
– Eu amo você, Lorenza.
Eu nunca fui tão feliz na vida. Abracei-o com força, beijei-o e senti que minha vida finalmente ia começar. Eu havia finalmente encontrado o meu lugar.
FIM