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Oiiieee!!!!

Terceiro conto erótico rs.

Quem será a nanete de hoje? Ela me disse que confiava em mim para criar uma história com o nome dela, assim eu deixei a imaginação rolar e … vocês vão ver rsrs. Espero que gostem!

Quero deixar um recado para a homenageada de hoje, mas estará no fim do conto. Leiam tudo, pois essa pessoa foi muito especial para mim, é muito especial para mim e sempre será.

Beijos!

Eu amei este conto … Ah! Tem um vídeo no início e outro no final. Músicas lindas sobre o tema tratado. Bjs!

 

 

O vento em mim

 

Eu subi as escadas da biblioteca e as madeiras polidas rangeram sob meus pés. Há tantos anos eu fazia aquele caminho, que até já conhecia cada som dependendo do lugar onde eu pisasse. Assim como conhecia de cor a textura do corrimão morno em minha mão e o cheiro, que era o melhor de todos: uma mistura de madeira antiga com livros encadernados de couro e papéis de décadas atrás.

Desde pequena, aquela biblioteca em uma cidade do interior de São Paulo era o meu local preferido. Meu pai tinha sido bibliotecário e me levava ali vezes sem conta.

Adorava andar entre as longas e altas fileiras de livros, sentar em um canto passando páginas ou desenhando. Muitas vezes somente absorvendo o silêncio profundo ou observando as pessoas entretidas em suas leituras e pesquisas.

Enquanto outras crianças corriam na rua, brincavam nos balanços, faziam algazarra, eu sonhava com histórias escritas por alguém em um papel. E assim cresci, andando por ali, conhecendo um a um os livros enfileirados, escolhendo os meus prediletos.

Algumas pessoas me criticavam. Diziam que deixei de viver a minha vida para viver  a dos livros. Talvez tivessem razão. Meus pais tinham falecido, meus parentes viviam longe, minha vida era da minha casa para a biblioteca, onde eu trabalhava e agora ocupava o lugar que por tantos anos foi do meu pai.

Deixava que falassem. Afinal, o que podia fazer se achava a vida entre as páginas de uma obra literária muito mais interessantes que a minha? Se eu sabia que nunca viveria histórias tão interessantes nem amores tão cheios de arroubos?

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Minhas sapatilhas mal fizeram barulho enquanto me aproximava da grande recepção. Lúcia, a estagiária que trabalhava ali há alguns meses, sorriu meio preguiçosa ao me ver.

— Bom dia, Chefa.

— Já disse que não sou chefa.

Entrei e fui deixar minha bolsa no armário após uma pequena portinhola. A Biblioteca ainda estava completamente vazia de manhã. Não que enchesse muito. Apesar de ser antiga e enorme, acabava se tornando um pouco esquecida na cidade pequena, naquela época em que tudo se procurava no Google e se pesquisava na Wikipédia.

— É você quem manda em tudo neste lugar. — Lúcia deu de ombros, jogando seu copo vazio de café na lixeira sob o balcão. Bocejou. — Que preguiça sair da cama hoje! As coisas por aqui podiam ficar mais animadas, não acha?

Sorri, indo me servir de um café na cafeteira. Sentei em uma das cadeiras, cruzando as pernas sob a saia longa, apreciando a minha manhã tão igual a todas as outras. Eu adorava aquele ambiente austero e a sensação forte de paz. Somente algumas vezes a solidão machucava e em mim surgia um desejo silencioso por algo mais, uma novidade que chacoalhasse meu mundo. Afastei a ideia boba, enquanto Lúcia começava a falar sem parar e interrompia meus pensamentos.

Ela era agitada e cheia de vida. Usava roupas da moda, tinha piercing no nariz, cabelo black cheio e com as pontas com luzes e adorava cores que valorizassem sua pele negra linda. A boca carnuda sempre tinha algum batom chamativo.

Nunca entendi a opção de Lúcia em estudar Biblioteconomia. Eu a via muito mais à vontade fazendo Moda, Design de interiores ou quem sabe algo relacionado às Artes. Entretanto, ela tinha o mesmo vício que eu: ler livros. Muitos, incontáveis vezes, sempre.

Era bom ter ali uma estagiária diferente das anteriores. Sua alegria era contagiante e sua conversa sempre me fazia sorrir.

A manhã foi completamente normal e rotineira. Uma nova coleção tinha chegado e eu era responsável por organizar nas estantes e nos dados de pesquisa. Lúcia estava me ajudando a separar os títulos, quando disse entusiasmada:

— Adorei o fato das editoras mandarem exemplares de livros nacionais atuais pra gente. Tem até livros eróticos! — Olhou-me, surpresa, segurando o livro “Apimentando”, da Janaina Rico. — Você quem pediu, Karina?

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— Alguns são eróticos, outros romances. — Não sei por que eu corei, continuando o meu trabalho. — Pedi livros nacionais, mais modernos. Talvez assim os jovens dessa cidade se animem mais a ler.

— Verdade! Você tem ideia ótimas! Se quer saber, amo vários clássicos, mas acho que nas escolas tinham que misturar com livros atuais. Olha isso aqui: — Lúcia abriu o livro e leu uma parte: — “Na teoria sou uma ‘Deusa do Amor’. Não existe problema algum na cama que eu não seja capaz de resolver. Bem, teoricamente… Na prática a coisa não é bem assim. Ocorre que, ‘em casa de ferreiro o espeto é de pau’”.

— A personagem aí é a maior sexóloga do Brasil, mas nunca teve um orgasmo com seu marido.

— Já leu, hein? Está espertinha, Karina!

Lúcia brincou, me provocando. Eu apenas sorri sem graça, sem admitir a ela que já tinha lido livros bem eróticos, tanto os mais antigos como de Anaïs Nin, Almudena Grandes e Henry Miller, como os mais novos. Aliás, eu lia de tudo um pouco. Gostava de boa literatura, independente do estilo.

Eu era meio como a personagem daquele livro. Teoricamente conhecia muito sobre vários assuntos de tanto ler, inclusive sexo. Mas na prática a coisa mudava de figura. Se levasse em conta que minha experiência sexual se resumia a um único namorado, eu seria tudo, menos uma “Deusa do Amor”.

As coisas ficaram mais animadas por ali com uma turma de escola que chegou acompanhada da professora. Enquanto Lúcia se ocupava deles, eu comecei a pegar alguns livros já catalogados e levar para as estantes mais nos fundos da grande biblioteca.

Subi na escada, trabalhando com atenção. Foi quando senti um vento bater nas minhas pernas e passar entre as minhas saias, levantando-as levemente. Parei, surpresa, pois ali não tinha janelas abertas, tudo era com ar condicionado. E a porta de entrada ficava longe, depois de uma escadaria. Mesmo aberta, não teria uma corrente de ar daquelas.

Olhei para baixo e ao longo do corredor, franzindo a testa, tentando entender. Uma nova brisa veio e sacudiu minha roupa, então eu comecei a descer, pronta para investigar o ocorrido. Estava na metade dos degraus, quando um movimento chamou minha atenção.

À esquerda, quando o corredor se encontrava com outro que o cortava, havia um homem parado, de costas para mim. Ele segurava um livro com capa de couro, que parecia ter acabado de tirar da estante. E o observava com o rosto meio de lado.

Não sei porquê, um arrepio percorreu minha espinha. Talvez fosse a sombra que o encobria um pouco, talvez algo que parecia remontar o passado. A roupa marrom, o casaco de corte antigo, o cabelo escuro que descia liso até os ombros. Seu perfil era másculo, com nariz aquilino se sobressaindo. Ele estava completamente parado.

Senti uma espécie de familiaridade. Embora soubesse que nunca o tinha visto por ali.

Fiquei imóvel também, só observando-o. Por um tempo, ele não fez nada. Então, subitamente, sumiu no corredor ao lado. E instantaneamente a brisa veio de encontro a mim.

Desci rapidamente o que restava e, sem pensar muito, andei até lá, virando também no corredor. Ele estava no final deste, já chegando em outro. Seu cabelo voava um pouco com seus passos rápidos, suas pernas longas o distanciando de mim. Era bem alto, com ombros largos.

Novamente sumiu das minhas vistas. Quando segui seu rastro, senti um cheiro bom de terra e mato, de ar fresco e puro. Tão forte que era como andar no meio de um imenso jardim. E o vento suave veio em minha face, como se eu realmente estivesse ao ar livre.

Completamente confusa, apressei os passos entre os labirintos de livros tão conhecidos. Mas estaquei de repente ao virar e o ver no fim do corredor longo, olhando para mim. Havia certa escuridão cobrindo seus traços, mas pude notar seu olhar claro e penetrante parecendo me perfurar. Assim como o nariz forte, o queixo firme, os cabelos escuros descendo ao lado do rosto masculino.

Na mesma hora entendi a familiaridade. Ele se parecia demais com o Ralph Fiennes interpretando uma das adaptações do livro O Morro dos Ventos Uivantes. Era como estar diante de Heathcliff, enquanto uma descrição dele no romance vinha em minha cabeça: “seu aspecto escuro e sujo”, descrito com certo preconceito por sua condição cigana.

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Abri a boca, não para dizer algo, mas de pura surpresa e estupefação com a semelhança, até no modo de se vestir. Parecia ter saído do século XVIII e aparecido ali.

Ouvi um baque e então vi que o livro tinha caído da mão dele para o chão. Antes que eu reagisse ou buscasse uma explicação lógica, ele entrou no outro corredor e sumiu.

— Espere!

Consegui chamar, reagindo, correndo para lá. Abaixei, peguei o livro e o segui. Olhei pelos corredores, entrando em um e saindo em outro, sentindo seu cheiro de terra e mato, aquela brisa surpreendente que ocasionalmente passava por mim. Andei e andei, até estacar ao chegar no salão com mesas e ver os alunos espalhados por ali, sendo orientados por sua professora a se concentrarem na pesquisa e manterem o silêncio.

Alguns me olharam, mas eu mal percebi, buscando o homem moreno. Ele tinha desaparecido como que por encanto.

Estava pronta a continuar a busca, quando Lúcia me chamou do balcão:

— Algum problema, Chefa?

Eu a encarei e depois a porta de entrada. Caminhei até ela e indaguei:

— Você viu um homem passar por aqui?

— Um homem? Não. Por enquanto só temos a turma com a professora. Por quê?

Engoli em seco, sem entender. Novamente um arrepio percorreu minha coluna. O que tinha sido aquilo? Uma visão? Um fantasma?

— Karina?

— Sentiu o vento?

— Que vento?  — Ela deu uma risada. — Hei, o que está havendo? Tá brincando comigo?

— Não.

Foi então que me lembrei do livro em minha mão. Eu o ergui e li o título: O Morro dos Ventos Uivantes.

Pareci tomar um soco, chocada demais.

Pisquei, sentindo uma pontada de medo, olhando mais uma vez em volta. Eu só podia estar louca, tendo alucinações. Talvez tivesse lido tantas vezes aquele livro, assistido tantas vezes o filme de 1992 com Ralph Fiennes e Juliette Binoche, que estava agora vendo coisas na minha realidade.

 

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— Karina, dá para me dizer o que houve? Viu um homem aqui?

A voz de Lúcia me despertou. Não respondi, decidida a encontrar o homem. Ele ainda devia estar ali e haveria uma explicação racional para tudo aquilo.

— Fique de olho. Se ele passar por aqui, me chame.

— Mas …

Saí apressada, me metendo entre as dezenas de estantes. Percorri cada canto que eu conhecia desde pequena. Se alguém me perguntasse sobre qualquer livro ali, eu saberia exatamente onde achar.

O cheiro e o vento tinham sumido. Não havia nenhum rastro de sua presença em lugar algum. Finalmente parei, sem entender nada.

Fechei os olhos por um momento, segurando o livro contra o peito.

Eu tinha enlouquecido de vez.

 

 

Nos dias seguintes, eu ainda o busquei, com um misto de sentimentos. Medo de que fosse uma alucinação e certeza de que ele era real, só podia ser. Sempre fui tímida, meio isolada, mas nunca tive problemas mentais. Não podia começar agora.

Na quinta-feira à noite, depois do banho, me enrosquei em um velho roupão rosa e, enquanto penteava os cabelos castanhos na altura dos ombros, lembrei distraída de Breno. A primeira vez que tinha me visto com aquele roupão, disse que eu parecia uma vovó. Enquanto o namorei, mantive aquela peça de roupa guardada no fundo do armário. Depois que o relacionamento acabou, eu a resgatei com saudade. Era confortável e familiar, uma herança da minha mãe.

Eu quase a podia ver usando-o enquanto fazia o café da manhã, às vezes reclamando por que eu e meu pai só falávamos de livros. Ela não ligava para leitura, sua paixão era cozinhar e fazer doces maravilhosos para um restaurante local.

Ainda assim, ela e papai formavam um belo casal, companheiros em tudo. Se um dia eu tivesse na vida um terço do que os dois tiveram, estaria feliz.

Larguei o pente na bancada e ajeitei os óculos grandes e de armação marrom. Nunca fui muito de me enfeitar e tinha minha moda própria, como saias longas e sandálias baixas ou sapatilhas. Mas mesmo sem maquiagem ou seguindo padrões, era bonita. Pele linda, olhos inteligentes, boca bem feita. Tinha meus atributos, que puxei de mamãe. Mas nunca soube usá-los muito bem.

Saí do banheiro e fui para a sala, apertando melhor o cinto do roupão. Pensei novamente em Breno e senti alívio por ele não estar mais ali, se ocupando do meu sofá, vestido com sua camisa do Timão, tomando conta do controle remoto. Adorava programas de auditório e futebol. Novelas também. Domingo então, era dia de chegar com seus chinelos, deixar cervejas na geladeira e me chamar para ver Faustão e Brasileirão. Até dava arrepios recordar a tortura!

Eu teria aguentado nossos gostos diferentes, até mesmo me baseando na vida dos meus pais, se ao menos Breno despertasse algo mais em mim do que um aplacar de solidão. Sexo era ruim e nunca gozei com ele. Era muito melhor sozinha, imaginando que algum personagem literário me tomava. Conversa entre nós parecia entre um árabe e um chinês, incompreensível. Ele nunca tinha lido um livro na vida!

Quando percebi que se instalava mais e mais em minha casa, me tratando como empregada, me montando na cama sem qualquer preliminar, comendo tudo da minha geladeira, esparramado com aquela camisa de time, eu percebi que era melhor viver na minha companhia conhecida.

Breno garantiu que eu ainda correria atrás dele. Quando nos cruzávamos pela cidade, olhava-me com desprezo e raiva, incapaz de entender os motivos da minha dispensa. Como se a qualquer momento eu fosse cair de joelhos e implorar sua volta.

Talvez algumas pessoas se desesperassem com a sua solidão e assim aceitassem qualquer um que aparecesse demonstrando um pouco de interesse. Mas eu não. Até o momento nem sabia o que tinha feito com que eu ficasse com ele, pois sempre fui muito exigente.

Para quem tinha contato com tantos personagens incríveis, tantas histórias de amor marcantes, se tornava difícil não sonhar. Ainda mais depois de presenciar o amor dos meus pais.

Naquela noite, vi o filme O Morro Dos Ventos Uivantes, aquele que eu mais gostava, dirigido por Peter Kominsky e a versão mais fiel do livro. Olhando para Ralph Fiennes no papel de Heathcliff, eu ainda ficava abismada com o homem que tinha visto na biblioteca, tão parecido com ele.

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Não havia explicação. E eu chegava a cogitar se não tinha sido algum sonho meu. O homem, o cheiro, o vento. Irracional demais para entender. Tinha que agora tentar esquecer, por mais que o assunto não saísse da minha mente e me perturbasse muito.

Na sexta, eu estava com Lúcia anotando alguns catálogos, com apenas duas moças lendo na biblioteca. Abel chegou e se debruçou no balcão, informando:

— Li os três e vou pegar mais três livros!

Nós o olhamos. O rapaz de vinte e poucos anos era o nosso leitor mais fiel. Toda semana estava ali, fazendo empréstimos de livros, pedindo opiniões, querendo discutir suas leituras.

Abel morava com a mãe. Ao nascer, tinha ficado muito tempo com o cordão umbilical no pescoço, enforcando-o, por isso teve falta de oxigenação no cérebro. O resultado foram alguns problemas mentais, dificuldade de aprendizado e também de movimento com os membros do lado direito do corpo.

Ele acabou encontrando nos livros uma maneira de desenvolver seu cérebro e se distrair. Era praticamente um viciado.

— O que me recomendam hoje?

Sua voz também era levemente embolada, arrastada.

— O que está com vontade de ler? Romance, drama, algo mais leve? — Perguntei.

Ele revirou os olhos, pensando.

— Um livro pesado. Não de peso, sabe … o conteúdo.

— Que tal O Morro dos Ventos Uivantes? Esses dias a Karina estava com ele nas mãos. Ela é especialista neste livro.

Eu encarei Lúcia, curiosa por ela ter tocado naquele assunto que não saía da minha cabeça.

— Como é esse? Terror?

— Não, Abel. É um romance complexo, com paixões violentas. Retrata uma realidade do século XVIII, apesar de ter sido escrito em 1847 por Emily Brontë. Uma história de amor selvagem, com personagens marcantes. É considerado um dos romances mais importantes da literatura inglesa.

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— Gostei! — Abel se animou. — A Emily ainda está viva?

Eu sorri e Lúcia brincou:

— Só se ela fosse uma múmia! Amor, ela morreu faz tempo!

— Amor? — O rapaz ficou animado e corado, fazendo Lúcia dar uma risada.

Expliquei:

— Ela morreu aos 29 anos, de tuberculose, sem saber o sucesso que seu livro faria tantos anos depois. Na época, ela publicou o livro com pseudônimo masculino e mesmo assim os críticos ficaram chocados com a estrutura e a tensão da história, que é de um erotismo pungente. Imagina se soubessem que era de uma mulher!

— Coitada … — Abel estava penalizado. — Que tragédia!

— Sim. — Eu amava falar sobre autores e livros, principalmente aquele. — E ela não era a única artista da família. O irmão era pintor e duas irmãs também escritoras: Charlotte Brontë, que escreveu o famoso Jane Eyre, e Anne Brontë, que escreveu Agnes Grey. Antes de lançarem seus livros, em 1846, as três irmãs lançaram um livro de poemas escrito por elas.

— Disso eu não sabia! — Lúcia estava surpresa.

— Pois é verdade. Apesar da crítica elogiosa, venderam apenas dois exemplares. Podiam até ter desanimado, não é? Mas depois cada uma escreveu seu livro e são consideradas importantes demais na literatura. O talento fazia parte da família, como a tragédia também.

— Mas as outras não morreram cedo, né? — Abel tinha se debruçado no balcão, torcendo por um final feliz.

Lamentei não poder lhe dar aquilo. Fiquei na dúvida se contava a verdade e Lúcia incentivou:

— Agora quero saber também! Não estudei isso na faculdade.

— Elas já tinham perdido as duas irmãs mais velhas para a tuberculose. Em 1848 foi a vez do irmão, com bronquite crônica e debilidade extrema causada por abuso de álcool. Três meses depois morreu Emily, com tuberculose. Dizem que estava com o coração partido pela morte do irmão. Um ano depois dela foi a vez de Anne, também com a mesma doença. Ficou somente Charlotte e o pai. Nesta época ela fez muito sucesso como escritora. E se casou, engravidando. Mas em 1855, sentia muitas náuseas, desmaiava e acabou morrendo com o bebê. Dizem que foi tuberculose, mas se supõe que ela ficou muito debilitada com os frequentes vômitos durante a gravidez.

— Credo! — Lúcia sacudiu a cabeça. — Coitadas! Grandes escritoras e com um fim desses! Jovens ainda. Tristeza!

Abel estava com os olhos cheios de lágrimas e pediu:

— Tem livros delas aqui? Quero levar Charlotte, Emily e Anne para casa. Vou cuidar delas.

Fitei-o com carinho e fiz um afago em sua mão. Lúcia foi buscar os livros pra ele.

Já estava no final da tarde, quando Lúcia puxou novamente o assunto:

— Eu sei que você gosta do Heathcliff, Karina, mas eu o acho tão cruel e selvagem!

— E ele é. O encanto está aí. Tem momentos que ele desperta raiva, outros pena e amor. Assim com Catherine também é um personagem dúbio. A autora conseguiu mostrar a beleza e a escuridão do amor humano.

— Ainda assim, não gosto dele. Muito malvado! Dava uma pena do marido dela na história!

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Não discuti, pois cada um tinha uma impressão diferente após ler o livro ou ver o filme. Mas a sensação que se tinha era de um lugar árido, cinzento, de ventos violentos como eram os personagens, cruéis e cheios de angústias.

Ainda assim, eu adorava aquele amor que ultrapassava até a morte. Heathcliff nunca se conformou em perder Catherine e chamava o fantasma dela, com ódio de tudo e de todos. Murmurei:

“E eu rezo uma oração… Hei de repeti-la até que minha língua se entorpeça. Catherine Earnshaw, possas tu não encontrar sossego enquanto eu tiver vida! Dizes que te matei, persegue-me então! A vítima persegue seus matadores, creio eu. Sei que fantasmas têm vagado pela terra. Fica sempre comigo… encarna-te em qualquer forma… torna-me louco! Só não quero que me deixes neste abismo, onde não posso te encontrar! Oh, Deus! É inexprimível! Não posso viver sem minha vida! Não posso viver sem minha alma!”.

— Você conhece as frases de cor! — Lúcia estava impressionada. — Karina, cada dia admiro mais essa sua cabeça inteligente, mulher!

Eu apenas ri, sem graça. Talvez ela me achasse uma esquisita, isso sim.

Lúcia foi embora e a biblioteca estava completamente vazia às 17 horas. Fui colocar um livro na estante, para depois trancar tudo e sair.

O ambiente era silencioso. E enquanto eu me debruçava para encaixar o exemplar em seu lugar, ouvi passos. Na mesma hora me imobilizei e senti o coração bater forte no peito. Por um momento, não ousei nem respirar.

Era ele.

O pensamento veio e o combati. Não, alguém devia ter entrado.

Tentei me acalmar, prestando atenção. Os passos tinham parado.

Coloquei o livro e me virei, olhando para os dois lados do corredor. Agitada, com as pernas um tanto bambas, andei rapidamente até a recepção e estaquei ao vê-la completamente vazia. Não tinha ninguém ali.

Naquele instante, senti um vento frio vir por trás e parecer beijar a minha nuca. Virei abruptamente, dando um grito abafado, levando a mão ao peito onde o coração parecia um tambor.

O silêncio era absoluto, os corredores apenas com estantes e livros. Meus olhos sondaram tudo e tive vontade de sair correndo, mas não consegui me mover.

Veio o cheiro de natureza, mato, terra molhada, ar fresco. Junto com a brisa em minha pele. E eu soube que ele estava ali.

Engoli em seco, mal respirando. O certo era sair, mas fiquei com medo e também curiosa, uma parte minha querendo desesperadamente vê-lo de novo, comprovar se era real ou fruto da minha imaginação.

“Estou louca, estou louca …”, repeti mentalmente e, contra tudo que era lógico e certo, dei um passo à frente e mais outro. Arrepios desciam e subiam do cóccix até a nuca, dando-me certa vertigem, todo meu corpo tenso, pronto para a fuga.

Entrei no primeiro corredor e o segui devagar até o fim. Virei, olhei, entrei em outro. Fui ganhando mais confiança, mais certeza de que não havia nada ali e eu só imaginava. Devia estar cansada, estressada, precisando de férias e de um afastamento da biblioteca. Tantos livros, tantos anos fantasiando, conversando sobre literatura, trabalhando com aquilo … tinham cobrado um preço. Devia estar com cansaço mental.

Caminhei quase sem fazer barulho, a saia longa roçando minhas pernas. Nervosamente, afastei o cabelo para trás da orelha, tentei manter o controle do corpo e do pensamento.

O corredor era longo, levemente na penumbra. Partes das luzes já tinham sido apagadas. Os livros eram meus únicos companheiros ali, calados, como se observassem a minha passagem.

Já quase me convencia que tinha sido apenas uma ilusão. Estava chegando ao fim do meu percurso, quando os passos retornaram e, quase que imediatamente, ele surgiu no cruzamento de dois corredores. Parou ali, olhando para mim, seus cabelos negros caindo até os ombros, todo de preto.

 

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— Ai …

Quase morri do coração e fiquei paralisada, mão no peito, ar me faltando, tudo em mim parecendo ficar gelado de medo. Minhas pernas tremeram, minha boca abriu sem som.

Os segundos passaram, como se estivessem se arrastando. Cenas do livro e do filme passaram por minha mente, Heathcliff perturbado e cheio de rancores, seu amor incondicional e cruel, sua paixão avassaladora destruindo vidas, inclusive a dele.

Meus olhos se encheram de lágrimas, sem que eu pudesse conter. E naquele momento, enquanto um vento suave parecia vir dele para mim, batendo nos livros, chegando lento, eu soube que se me mexesse, ele partiria, como da outra vez. Assim, apenas esperei, olhei, senti. Deixei que sua imagem enchesse meus olhos, seu cheiro de mata invadisse minhas narinas e o sonho que ele representava me desse júbilo.

Eu podia estar louca, mas aquilo era real. De alguma forma, ele estava ali por mim. E uma emoção nunca antes sentida, que procurei a minha vida inteira, aquela que sacudiria a calmaria da minha alma e me mostraria que sentimentos arrebatadores existiam, fez com que eu o recebesse sem tentar nada.

Assim eu pensei, até tudo mudar e aquele homem começar a caminhar em minha direção. Aí tudo se precipitou: coração, respiração, nervos, sensações. Virei uma massa alucinada de emoções e, num átimo de coragem, murmurei:

— Heathcliff … é você?

Ele não parou. Veio como o vento e ainda assim como homem, as pernas o trazendo. Seu cabelo se moveu, seus olhos piscaram e me sondaram pela face. Vi o tecido negro de sua roupa, o tom moreno da pele, como tudo contrastava com o verde da íris. Como podia ser uma ilusão e ainda assim ter tantos detalhes reais? Ao parar na minha frente, vi as pequenas rugas no canto dos olhos, a sombra de barba escurecendo seu rosto.

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Pensei que desmaiaria, mas lutei para continuar de pé, olhos bem abertos, querendo observar tudo. Abri a boca para insistir na pergunta, mas a voz dele, grossa e rouca, me surpreendeu na resposta:

— Não.

— Mas … — Busquei juntar as letras, formar palavras, nervosa demais. Minhas mãos formigavam com vontade de tocá-lo, saber se era mesmo real como parecia. — Você parece com ele. E com o ator que …

— Não sou Heathcliff.

Senti-me ridícula. Claro que não! Era alguém parecido, que surgiu ali e estava brincando comigo de gato e rato. Uma ideia me veio à mente e gelei, perguntando:

— Contrataram você para me perturbar? Foi uma brincadeira da Lúcia?

— Não sei quem é Lúcia.

— Foi o Breno? Ou algum colega que …

— Eu vim por que você me chamou, Karina.

Meu coração continuava num ritmo frenético. Olhava-o, incrédula.

— Sabe meu nome?

Não respondeu. Seu olhar era vivo e impressionante naquele verde. Sua energia crepitava, parecia chegar até mim com estática, arrepiando até meus pelinhos do corpo.

Sem aguentar mais aquele mistério, ergui a mão direita e segurei o tecido do seu paletó negro e grosso. Senti-o nas digitais e dei um passo para trás, agitada, exclamando:

— Você existe mesmo!

— Vim por você.

— Por mim? De onde? Como assim?

Estava nervosa, cada vez mais confusa. Seu cheiro era delicioso, fresco, quente. Ao mesmo tempo, uma brisa parecia vir dos seus pés e subir por dentro da minha saia, acariciando minhas pernas, subindo, subindo …

Era tudo imaginário, pois ele não podia surgir do nada e trazer o vento com ele. Não ali, na biblioteca fechada. Ninguém o tinha visto, só eu. E se fosse um sonho? Se eu estivesse cochilando em minha cadeira, criando tudo aquilo?

Mordi os lábios, recuei até que bati contra os livros atrás de mim. Foi tão forte, que alguns caíram e se espalharam no chão, assustando-me mais, deixando-me perdida. Ouvi um grito dentro de mim que me mandou fugir e, desnorteada, aflita, era o que eu ia fazer.

— Não. — Ele me surpreendeu. Em segundos estava sobre mim, encurralando-me contra a estante, suas mãos firmes em meus ombros, seu olhar parecendo queimar o meu até a alma. Disse com intensidade: — Sabe do quão longe eu vim para encontrar você? Tudo que passei até chegar aqui?

Arquejei, seu toque passando através da minha roupa e ardendo em minha pele. Perturbada, sacudi a cabeça, perdida pela realidade de tudo. Como eu podia imaginar algo tão palpável, tão tangível? Sua respiração era quente em minha face. Ele estava todo ali, um homem de verdade.

— Do que está falando? Quem …

Seu olhar era tão arrebatador, que me perdi com as palavras, emudeci. E eu me calaria de qualquer jeito, pois tirou meu ar quando veio mais perto e, de repente, tomou minha boca com a dele. Os lábios firmes e ainda assim macios se colaram nos meus, se moveram, enquanto a língua úmida e gostosa entrava, buscava a minha.

Sacudi, emergi, caí no abismo mais profundo que se poderia imaginar. Me perdi naquele beijo cheio de paixão e enlevo, como se um furacão tivesse me arrancado do chão e me levado com ele, girando vertiginosamente, parecendo que ia morrer. Mas como eu estava viva!

Suas mãos agarraram meus braços e os prenderam contra os livros, seu corpo se colou ao meu. Foi quente, duro, viril. A boca devorou a minha e eu me vi respondendo, enrolando a língua na dele, delirando com aquele gosto maravilhoso e embriagante. Começamos a arfar alto, nos esfregar, enquanto seu membro crescia absurdamente contra meu ventre e descia para se encaixar entre minhas pernas através da roupa.

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Quando soltou meus braços, eu o agarrei, com medo que se fosse, sem suportar me afastar de tudo aquilo. Toquei seu paletó, gemi ao sentir seus cabelos macios e os pelos de sua barba contra as pontas dos dedos.

Ele me apertou e suas mãos foram famintas em meu corpo, nos seios, afagando-os para depois ficar mais bruto, me consumindo em um prazer sem limites, nunca antes sonhado. Beijou-me tanto que quase perdi as forças, pernas fracas, desejo invadindo minhas partes íntimas e me amolecendo toda, umedecendo.

Agarrei seus ombros e gemi alto quando sua boca descolou da minha e desceu me mordiscando até o pescoço, suas mãos em meus quadris puxando a saia para cima, amontoada, desigual. O gemido virou grito quando senti seus dedos na pele nua da coxa, causando-me um choque delicioso. Suas carícias deixaram-me bamba e abri os olhos, um tanto perdida.

Estava ali, no lugar que eu mais conhecia no mundo, entre os livros que amava. Eu os vi enfileirados em frente e tudo que era familiar parecia estranho, fora do lugar sob aquela nova perspectiva. Nunca os tinha olhado daquele ângulo, pressionada contra a estante, tendo um homem maravilhoso me mordendo e tocando, me enlouquecendo daquele jeito.

Soltei um esgar abafado quando, sem que eu esperasse, ele enfiou os dedos sob a calcinha e a rasgou como se fosse de papel. O tecido estalou na minha pele, mas nada se comparou ao que me fez sentir. Pinguei da mais pura luxúria, esfregando-me, beijando seu queixo, arregalando os olhos quando ergueu o rosto e seu olhar perfurou o meu, ardendo como se chamas o consumissem.

— Você era minha antes de saber.

A voz era pura paixão. Minha mente girou cheia de perguntas, mas o arrebatamento era tanto que minha razão se perdia, pedia para deixar as perguntas para depois. Abri a boca e ele aproveitou para morder meu lábio inferior.

— Segure em mim. Preciso de você, agora!

O desejo não era só meu. Estalava entre nós, consumia vorazmente nossos sentidos. Fiquei tão enlouquecida que me transformei numa fêmea desconhecida para mim mesma e, da mesma forma que arrancou minha calcinha, eu arrebentei os botões de sua camisa com um puxão e botões voaram para longe.

Seu peito era moreno, modelado, lindo.

— Vem …  — Pedi, necessitada.

Beijou minha boca. Soltou-me o suficiente para abrir a calça. Eu o tateava, sentia sua pele, o apertava e beijava. Até que me ergueu, suas mãos sob a bunda por dentro da saia. Envolvi um dos braços em seu pescoço, o outro eu amparei na estante atrás de mim. Também apoiei cada pé na estante em frente e mais alguns livros caíram quando fui impulsionada e o corpo dele buscou o meu.

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Seu pau grosso deslizou entre minhas coxas, abriu meus lábios vaginais melados. Berrei sem saber o que dizia e comi sua boca, enquanto ele me comia também, penetrando-me bem fundo.

Nunca na minha vida senti algo tão extraordinariamente maravilhoso. Nós nos encaixamos certinho, eu do tamanho certo para acolhê-lo todo em mim, quente e deliciosamente duro, até o fundo.

Joguei a cabeça para trás, meus óculos tortos e embaçados, meu cabelo no rosto. Ouvi seus gemidos roucos enquanto erguia minha blusa com sutiã e tudo, sua boca em meus seios, uma das mãos também. Mordeu meu mamilo sem pena e uma pontada de dor me deixou desatinada, desvairada. Nós nos movemos enquanto metia em mim forte e firme, fazendo-me bater na estante até que mais alguns exemplares caíram.

 

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Corri uma das mãos em seu cabelo, a outra nas lombadas dos livros. Ondulei, me apertei em volta do seu pau, o suguei para dentro faminta. Foi um prazer descomunal. Fiquei agarrada a ele, mesmo quando começou a escorregar para o chão e me levar junto. Não saiu de dentro de mim ao se deitar de costas e eu ficar montada sobre ele.

Cavalguei-o, nossos olhares se encontrando, enquanto eu sentia os joelhos no chão frio e o resto do corpo pegando fogo. Espalmei as mãos em seu peito, mas antes ajeitei meus óculos, precisando vê-lo com perfeição. Deixei o ar escapar pelos lábios em arquejos.

Ele agarrou um dos livros a nossa volta, espalhados ali e abriu em uma página, dizendo de modo grosseiro:

— Foi isso que me trouxe pra você, Karina! E isso! Cada palavra, cada frase que você desejou neles. — Largou o livro e pegou outro. Ordenou: — Leia!

Mordi os lábios, sem entender. Não podia fazer nada mais que o puxar para dentro, alucinada, estremecendo. Minha roupa se embolava, saia ao redor dos quadris, blusa levantada e presa no sutiã, um dos seios expostos. Eu parecia e me sentia uma devassa.

Vi seus olhos naquela chama verde e segurei o livro, enquanto sentia suas mãos me firmando pela bunda e impulsionando dentro de mim. Exigiu mais brutal:

— Leia!

Pisquei, tentando enxergar as letras, me concentrar. Falei de modo entrecortado:

— “(…)Eu amava Capitu! Capitu amava-me! E as minhas pernas andavam, desandavam, estacavam, trêmulas e crentes de abarcar o mundo. Esse primeiro palpitar da seiva, essa revelação da consciência a si própria, nunca mais me esqueceu, nem achei que lhe fosse comparável qualquer outra sensação da mesma espécie.(…)”

— Dom Casmurro. — Ele disse.

— Machado de Assis. — Murmurei.

Tirou o livro da minha mão e o deixou no chão. Segurou-me firme e me ergueu o suficiente para sair de dentro de mim. Respirei pesadamente, desolada com aquilo, precisando de mais. Suas mãos estavam em minha bunda, trazendo-me mais para cima, murmurando:

— Sabe quantas vezes você leu estas frases?

Eram muitas, mas eu nem podia imaginar. Sacudi a cabeça.

— Oito vezes. —  Falou, trouxe meu corpo mais para perto e eu fui, tateando-o, vendo como me fazia quase sentar em seu peito, suas mãos já erguendo minha saia até a cintura, seus olhos apreciando minha boceta tão perto do seu rosto.

— Ah … — Eu sentia uma sensação de antecipação e palpitei freneticamente, buscando um resquício de consciência para aquela conversa, quando eu só conseguia pensar em sexo. — Como … sabe?

Não respondeu. Ergueu a cabeça e me puxou para sua boca, que parou a milímetros do meu clitóris. Minhas pernas estavam como gelatina e esperei que me lambesse, em expectativa. Mas apenas me olhou. A voz era rascante:

— Pegue mais um livro.

O desejo aumentou e eu me inclinei o suficiente para agarrar um exemplar. O movimento fez meu corpo descer mais e senti os lábios vaginais se esfregarem em sua boca. Gritei quando me chupou ali bem gostoso e apertei o livro com força contra o peito, fechando os olhos, ondulando sem controle.

Eu fervia, a ponto de explodir, excitada demais, meu clitóris duro sendo tão suavemente manipulado. Tonteei quando parou e disse bem perto do meu ponto mais sensível:

— Leia.

Abri com mãos trêmulas. Ar passava com dificuldade por meus lábios. Tentei focar com meu olhar nublado, as letras dançando diante de mim.

Todo o prazer que eu tinha com um livro parecia exaltado ao limite ali, seminua, pronta para ler e para ser chupada tão gostosamente. Nunca na minha vida tinha experimentado sensações tão extremas e extasiantes.

Li um trecho, baixinho:

“(…) Espera, Eugénie, agora vou ensinar-te uma maneira nova de mergulhar uma mulher na mais extrema volúpia (…)”.

Eu me calei, sabendo o que viria, baixando o olhar para encontrar o dele. Algo parecia nos ligar. Continuava imóvel, tão perto, só me encarando. Falou de modo grave:

— Quando todos saíam, você lia Marquês de Sade e se masturbava. Às vezes no banheiro aqui, às vezes em casa. Ele sempre despertou duas emoções fortes em você: tesão e repulsa.

Estava chocada com o tanto que sabia. Um medo incipiente nasceu em mim e perguntei:

— Quem é você? O que é você?

— Ainda não sabe?

— Não.

— Sabe sim.

Ia retrucar, mas ordenou:

— Leia mais, enquanto chupo você.

Fiquei perdida, tentando reagir, mas presa no fascínio do seu olhar, naquela loucura espantosa que me arrebatava como nunca tinha acontecido. Seu olhar era exigente.

Fitei o livro, tomei coragem e continuei de modo trêmulo:

— “Afasta bem tuas coxas… Vede, Dolmancé, da forma que a deixo, seu cu fica para vós! Chupai-o, enquanto sua boceta vai sobrar para a minha língua… Façamo-la desmaiar assim, entre nós, três ou quatro vezes, se possível. Teu grelo é um encanto, Eugénie. Como é bom beijar esta penugem! (…)”. Ah! Ah!

Comecei a gritar quando me chupou enquanto eu lia, sua língua e seus lábios tão experientes que nova onda de gozo se fez presente, crescendo, tornando-se como um maremoto pronto a explodir.

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A boca era quente e macia. E foi aí que o orgasmo veio, fulminante, parecendo me partir ao meio. Berrei, fora de mim.

O livro caiu. Bateu no ombro dele e resvalou para o chão. Eu achei que ia cair também, mas em um segundo era virada e me deitava no chão frio e duro, alguns livros sob a cabeça.

Ele ergueu-se. Tentei segurá-lo, sem estar pronta para aquilo, ansiosa, ainda ondulando em prazer. Foi quando meus olhos bateram em sua nudez parcial, ajoelhado na minha frente.

Era de uma beleza descomunal, moreno, com aquele cabelo comprido caindo longo, despenteado. Seus traços eram angulosos, magros, o nariz forte. Os olhos profundos e duros. Parte de seu peito estava exposto pela camisa aberta, assim como seu pau longo e grosso que escapava da calça, ainda úmido da minha lubrificação.

— Não vou embora, minha leitora voraz.

Ele me virou bruscamente e me puxou de quatro. Com mãos e joelhos no chão, eu esperei ansiosa que viesse, me enchesse e não demorou. O pau entrou bem gostoso e fundo, o corpo cobriu o meu, seu cabelo macio se esparramou em meu rosto e nuca quando beijou o meu pescoço.

Latejei e me movi de encontro às suas estocadas, nós dois gemendo, seu cheiro deixando-me mais envolvida, uma brisa parecendo passar na minha pele nua. Fomos juntos naquela dança e nova onda de prazer me atacou.

Choraminguei e me dei sem reservas. Não foi rápido. Foi longo, duro, até que segurou meu cabelo e me fez virar o rosto. Os óculos entortaram quando nos beijamos e o senti se retesar e gozar forte dentro de mim.

Quando acabou, desabei. Ele caiu atrás e me puxou, até que ficamos unidos de conchinha, sua respiração em meu pescoço. Senti um livro sob a coxa, outro perto do meu rosto. O cheiro da capa se misturava com o dele, um afrodisíaco perfeito.

Senti-me exausta. Nunca tinha vivido tantas emoções juntas, em uma exaltar de sentidos. Queria virar, fazer perguntas, entender tudo. Mas só me deixei ficar, precisando de um tempo para me recuperar.

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Só percebi que tinha caído no sono quando acordei de repente.

Pisquei assustada, sem enxergar direito, meus óculos quase na testa. Ajeitei-os no lugar, enquanto sentia frio e incômodo. Me imobilizei quando percebi que ele não estava mais ali.

Virei, sentando, procurando-o. Nada. Só eu, os livros em volta e no chão, o silêncio que era meu velho companheiro.

— Meu Deus … — Chocada, achei que tivesse imaginado tudo. Talvez jogado os livros no chão, em algum momento de fantasia. Mas baixei os olhos e me olhei.

Minha saia erguida até os quadris, a calcinha rasgada no chão, a blusa torta. A pele estava ardida, vermelha. Os mamilos doloridos e a vagina com esperma escorrendo.

Nada foi imaginação. Ele simplesmente tinha ido embora da mesma maneira que chegara. Sem avisar, misteriosamente.

As coisas que fez e que falou passaram por minha mente, mas era confusão demais para atinar com exatidão os acontecimentos. Comecei a me pôr de joelhos, lembrando de sua aparência do Heathcliff, sua voz me dizendo que não era ele, dizendo tantas coisas sem explicar nada.

Meus olhos bateram com um livro aberto diante de mim e uma frase chamou minha atenção:

 

“Se um homem atravessasse o Paraíso em um sonho e lhe desse uma flor como prova de que havia estado ali, e se ao despertar encontrasse essa flor em sua mão … então o quê?”

 

Era uma frase de Samuel Taylor Coleridge, poeta do século XVIII.

Ergui-me, trêmula, abalada.

Qual o nome dele? De onde veio? Era uma ilusão? Mas como, se as provas de sua presença estavam em mim?

Fiquei sem resposta e soube que só me restava uma coisa: esperar ele voltar e então fazer todas as perguntas. Antes de cair novamente em seus braços.

 

 

Ps.:   A Karina homenageada aqui é a minha querida Karina de Pino. Ela foi a minha primeira editora, aquela que acreditou fielmente no meu trabalho e me levou para a Rocco, o que era um sonho meu.

Karina é e sempre vai ser minha editora, mesmo não estando mais na Rocco nem no Rio de Janeiro. E uma amiga por quem tenho todo carinho. Obrigada por tudo!!! Espero que ela goste do conto que fiz pra ela.

 

Beijos e até o próximo.

Agora fiquem com uma música que foi feita em homenagem ao livro O Morro dos ventos uivantes e que também mostra trechos do filme, que eu já vi mais de dez vezes rsrs.

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