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Oi, queridos!

Como sabem, hoje meu livro Além do Olhar sumiu do wattpad. Depois apareceu sem o último capítulo, o 25. Fiz uma repostagem, mas não adiantou e somente poucas pessoas conseguiram ler. Assim, estou colocando o capítulo aqui.

Aproveito para dizer que neste blog tem alguns contos meus. Se quiserem espiar, passear por aqui, fiquem à vontade.

Beijinhos!

 

A minha querida amiga Joycilene ontem conversou com a mãe do médico argentino Eric Schavinold, que é paraplégico e usei como avatar. Ela adorou saber que estamos imaginando Ramon através dele e mandou mais fotos, além de dizer que adoraria ler o livro em espanhol. A Dona Lola existe! rsrs

Espero que gostem do capítulo!

Beijinhos <3

 

 

Capítulo 25

 

 

Marcella

 

 

Às vezes ser famosa irritava.

Naquele momento eu só queria sair sozinha, andar pela praia, pensar. Mas duvidava que fosse conseguir ficar em paz. Ainda mais depois daquele episódio com as fotos, que chamava ainda mais a atenção para meu nome na internet.

Assim, apenas dirigi. Sem destino, seguindo em frente, deixando cada rua me levar pela cidade do Rio de Janeiro, só eu e meus pensamentos. Ilhada do mundo, protegida dentro daquele espaço cercado por vidro e metal. Pena que eu não pudesse me desvencilhar com tanta facilidade do que ficava amontoado dentro de mim.

Estava arrasada. Tinha esperado uma reação ruim de Ramon, até mesmo por ser ciumenta e me colocar no lugar dele. Mas não ouvir tanta coisa e não ter o seu apoio. Ele praticamente tinha colocado toda a culpa em mim e me condenado. E isso era o que mais doía.

Sentia raiva, mas o pior era a mágoa. No entanto, ainda assim, me preocupava com ele. Tinha visto aqueles seus olhos espelhando dor, meio nublados, sem o brilho de quando estava bem. Sabia que ele tinha passado por um procedimento delicado, que provavelmente teria efeitos colaterais por alguns dias, até o tratamento realmente fazer efeito. Podia estar pior, sozinho, passando mal.

Meio desnorteada, parei o carro em um acostamento no Leblon e peguei o celular, pensando em quem eu poderia contatar para dar uma olhada nele. Tinha trocado números com Lola, Paloma e Belinda. Mas vacilei ao ligar para elas, ainda mais imaginando que Dona Lola poderia me condenar, me querer longe do filho dela. E assim brigar comigo ao telefone. Acabei ligando para Paloma.

— Marcella? — Ela atendeu logo, meio surpresa.

Possivelmente já saberia sobre o vazamento das fotos, mas eu não quis falar sobre esse assunto. Fui bem direta:

— Oi, Paloma. Pode me fazer um favor?

— Claro! Você está bem?

— Sim. É que Ramon está em casa sozinho e fez o Bloqueio ontem. Talvez esteja com dores. Estou ligando para ver se você ou alguém da família vai lá ficar com ele.

— Ah, entendi … Mas mamãe e papai já foram para lá.

— Foram?

— Sim.

— Mas aconteceu alguma coisa com ele? — Fiquei mais preocupada.

— Não, é que … bem, eles foram devido a … ao que aconteceu … quero dizer …eles souberam e …

Entendi e a cortei:

— Viram as fotos na internet. Certo. Então, tudo bem. Não precisa dizer que liguei.

— Marcella, obrigada por sua preocupação com o Ramon. Pensei que estava lá com ele. E olha, não achei nada demais as fotos. Você estava linda como sempre.

— Obrigada — era um alento não ser condenada por ela. — Preciso desligar. Um beijo.

— Você está bem mesmo?

— Estou.

— Qualquer coisa, ligue. Beijos. Se cuida.

Despedi-me e desliguei.

Continuei segurando o celular e pensei que os pais cuidariam de Ramon. Não quis pensar demais nele e ficar ainda mais arrasada. No entanto, acabei lembrando da minha mãe, Clara, e a coisa não melhorou muito. Senti muita falta dela. Sabia que naquele momento teria seu colo, seu abraço carinhoso, suas palavras de força.

A sensação que tive foi de solidão. Mesmo com pai e irmã, eles pouco ligariam para mim. Talvez estivessem até rindo de tudo aquilo, ainda mais por estarem raivosos comigo por controlar o dinheiro.

Até pensei em ir ao apartamento deles, mas para conversar com Emília e receber o carinho especial das minhas sobrinhas, que só pelo fato de estarem comigo me fariam bem. Mas logo excluí aquela ideia e me irritei comigo mesma, por estar daquele jeito.

Ergui o queixo sozinha e parei de me lamentar e martirizar. Ninguém além de mim poderia enfrentar aquilo tudo de cabeça erguida e sem vergonha. Afinal, fiz o que tinha vontade, quando namorei Benjamin, como mulher inteira e feliz, naquela época sem imaginar o quão mau caráter ele era. Não havia nada para me arrepender. Tinha simplesmente que agir.

Empurrei para bem fundo o sofrimento que a reação de Ramon tinha me causado, embora em parte eu até compreendesse. Nunca tinha imaginado que pudesse ser tão ciumento quanto eu, muito menos que me julgasse. Mas levava em consideração suas inseguranças ainda à flor da pele, a novidade que nosso relacionamento era, principalmente sendo o primeiro depois de ter ficado paraplégico.

Sacudi a cabeça, também sem querer entender demais. Estava puta sim! Com raiva! Decepcionada! E precisando desesperadamente dos braços dele em volta de mim, do seu corpo quente e da sua voz macia me confortando, me fazendo acreditar que tudo era lindo e daria certo. Mas eu não era sua mãe ou sua irmã, para compreender e aceitar. Era namorada dele, mulher, queria ser amada do jeito que eu era. Sem tolas condenações sobre meu passado.

Liguei o celular ainda na minha mão e logo Leone o atendia. Exigi:

— Tomou alguma atitude com os sites?

— Oi, Marcella. Sim. Estamos processando todos que divulgarem as fotos e fizerem comentários maldosos.

Ele explicou as ações dos meus assessores e ouvi. Logo tomei uma atitude, decidida:

— Preciso que contate um dos meus advogados e peça que me encontre daqui a meia hora na delegacia do Leblon. Estou indo para lá denunciar Benjamin.

— Marcella, será que é boa ideia? Não tem provas contra ele, vocês estão trabalhando juntos, a situação pode se complicar ainda mais.

— Tenho certeza, Leone. Pode não dar em nada agora, mas ele vai saber que qualquer ato dele no futuro já tem um antecedente. Estou indo para a delegacia.

— Está bem. Fique tranquila, logo o Marques ou a Avelar encontrará você lá. E aqui continuaremos fiscalizando a internet.

— Ok. Obrigada. Mas preciso de mais uma coisa.

— O quê?

— Quero dar uma entrevista, falar sobre o assunto. Que seja em site grande ou um bom jornalista. E depois gostaria que minha declaração fosse espalhada por toda parte.

— Vou providenciar agora. Só pense bem o que vai falar, para não piorar as coisas. Às vezes na hora da raiva …

— Estou muito tranquila, Leone.

— Certo. Já aviso quem vai entrar em contato com você para a entrevista.

— Obrigada.

— Avise se precisar de algo mais.

— Falo sim.

Tão logo desliguei, pus o carro em movimento e procurei a delegacia.

Não ia perder tempo com lamentações, que não me levariam a lugar algum. Nem me esconderia com vergonha. Se Benjamin queria guerra, ia ter.

Na delegacia fui reconhecida. Acabei atraindo muita atenção, teve gente até querendo autógrafo e, para facilitar a minha vida, a delegada Joana Cavalcante era minha fã. Rapidamente me atendeu, cheia de sorrisos.

A fama também tinha um lado muito bom.

Enquanto meu advogado não chegava, conversei com ela e acabamos falando sobre a minha exposição na internet e aproveitei para explicar quem era Benjamin. Sua relação com as drogas, a tentativa de agressão, nossa separação, o modo como sempre me rondava. E então nossos últimos dois encontros, o primeiro em que me tratou cheio de agressividade e me cercando, o segundo com olhares ameaçadores. Até chegar ao suposto roubo do seu celular.

— Que cara ridículo!

Nem ela aguentou se controlar. Meu advogado, Luciano Marques, chegou no meio da conversa. Por fim, falei que gostaria de fazer um Boletim de ocorrência e denunciá-lo.

Marques explicou:

— Como ele não fez nenhuma tentativa de agressão física não podemos exigir uma pena muito rígida. Talvez no máximo uma prestação de serviços comunitários ou retratação pública.

— Duvido que Benjamin faça isso. É arrogante demais para admitir ser um covarde — Retruquei.

— Nossa lei é 8 ou 80 — Joana concordou com Marques. — Em um caso desses, ele pode ser enquadrado em Estupro ou Importunação Ofensiva ao Pudor. Como realmente não teve violência física, fica possível apenas essa última, que é um crime anão, uma contravenção penal sem tanto rigor.

— Que seja assim — Olhei para eles. — Se esse bandido se aproximar de mim, denuncio de novo. E peço um mandado de segurança contra ele.

Acabamos denunciando Benjamin Por Importunação Ofensiva ao Pudor e ele seria chamado para depor. Saí de lá mais fortalecida e decidida, deixando um belo autógrafo para a delegada e recebendo sua certeza de que faria o possível para que Benjamin entendesse que o melhor era ficar bem longe de mim.

Mais tarde eu também teria uma conversa com Gê, para que ele ajudasse a controlar aquele babaca no ambiente de trabalho. Não sairia ileso daquela história toda.

Marques me acompanhou até o carro e nos despedimos. Logo depois meu celular começou a tocar. Parei em um sinal e vi que era Ramon.

Meu coração deu um salto mortal. Por um momento, apenas olhei para o visor, na minha mente passando imagens de nossa discussão naquela manhã, meu coração tão apertado que doía. Senti saudade, preocupação, mas também muita raiva.

Ao mesmo tempo, lembrei do seu sorriso, do seu beijo, do seu carinho.

Pesei tudo. Deixei a raiva extravasar, assim como o amor. E me decidi.

 

 

Ramon

 

 

Eu sabia que seria perda de tempo ligar para Marcella, que ela me daria o desprezo merecido. Talvez nem quisesse mais olhar para mim, muito menos me ouvir explicar algo. Por isso troquei de roupa, pronto para ir atrás dela em seu apartamento.

A dor não dava trégua e minha cabeça latejava com a enxaqueca. Foi um custo vestir uma calça e uma camisa. Quando voltei para a sala, meu pai disse preocupado:

— Não vai sair assim. Está pálido, abatido.

— Preciso falar com ela.

— Já tentou ligar?

— Não vai me atender.

Hijo, você vai voltar para a cama! — Minha mãe veio decidida, agarrando minha cadeira, tentando virá-la em direção ao quarto.

— Mas a senhora mesma disse que …

— Sim, tem que ir atrás da Marcella! Mas não assim, quase caindo de dor! Está louco? Quer voltar para o hospital?

— Largue a cadeira, mãe — Travei as rodas, já que tentava usar a força. Olhei-o bem sério: — Eu vou falar com a Marcella!

— Ramon, se acalme — meu pai veio para minha frente, atraindo meu olhar. — Você vai ter tempo para tudo. Quando estiver melhor …

— Enquanto estou aqui, ela está por aí sozinha, cada vez com mais raiva de mim! Foda-se a maldita dor! Essa praga que não me larga! — Perdi a paciência, nervoso. — Depois que eu conversar com ela, volto para cá e me deito. Agora ninguém me segura aqui!

— Teimoso! — Minha mãe exclamou revoltada.

— Vamos acalmar os ânimos e usar a razão.

Seu Cícero passou a mão pelo cabelo liso e ponderou:

— Você tenta tomar algo mais forte e relaxar. Vamos ligar para seu médico e ver o que é possível fazer para que tenha um conforto maior, filho. Depois sua mãe liga para Marcella e conversa com ela.

— Eu já devia ter feito isso! — Na mesma hora ela sacou seu celular. Vasculhou a bolsa sobre o sofá: — Cícero, cadê meus óculos de leitura?

— Nenhum dos dois vai ligar para Marcella e interceder por mim. Eu vou falar com ela pessoalmente, entenderam? — Voltei a destravar a cadeira e empurrei-a em direção à porta, irritado.

Mierda, niño! — Minha mãe correu e se meteu na frente da porta, exagerada, dizendo alto: — Só sai daqui depois que se cuidar primeiro!

Eu respirei fundo, lutando para não deixar meu mau humor explodir. Estava cansado, ansioso, cheio de culpa. A dor era só uma parte de tudo aquilo, a parte que menos me importava naquele momento. Abri a boca para dizer a eles que eu tinha direito de tomar minhas decisões, quando o telefone de minha mãe começou a tocar.

Ela apertou os olhos para a tela, reclamando:

— Nem consigo ver o nome de quem é! Acho que esqueci os danados desses óculos em casa! Devem ter pernas e se esconderem de mim! Alô! Quem é? Hã? Paloma, não dá para conversar agora! Me liga outra hora! Não vê que estou no seu irmão e que a coisa por aqui não está boa? — Ela ouviu um pouco e fitou-me de imediato. — O quê? Jura?

Sorriu abertamente.

Bufei e empurrei minha cadeira mais à frente. Ela estendeu a mão, me mandando parar, sem sair diante da porta. Esfreguei a barba, querendo xingar todo mundo, levantar daquela cadeira e sair dali, resolver tudo que me afastava de Marcella e arrasava comigo.

Estava além de tudo preocupado com ela, me lamentando por não tê-la nos braços, fazendo o impossível para ajudá-la a enfrentar aquela exposição toda. Com uma raiva tremenda de mim, de tudo que falei, do vacilo grandioso que dei com ela. E minha mãe não saía da frente, enquanto ainda batia papo com a minha irmã.

— Obrigada, Paloma. Fez bem em ligar, querida. Depois falo com você. Sim, beijos também.

Ela desligou e me deu um grande sorriso.

— Marcella ligou para Paloma.

— O quê? — Fui pego totalmente de surpresa.

Olhou amorosamente para meu pai:

— Cícero, essa moça ama mesmo o nosso niño! Olha só isso, mesmo chateada com o comportamento dele, ficou preocupada por deixá-lo aqui sozinho e ligou para Paloma ou um de nós vir ficar com ele. Essa foi a nora que pedi a Deus! Uma santa! Uma filha! Hija de Lola!

Eu senti um baque profundo por dentro. Ao mesmo tempo que uma onda forte de amor me varria, veio junto outra de vergonha, maior do que tudo. Era como se Marcella me desse um tapa na cara sem usar as mãos.

Mesmo furiosa, decepcionada, talvez nunca mais querendo me ver, ela se preocupou comigo. Me colocou acima da sua raiva e do seu orgulho, só para garantir que eu estivesse bem.

Sem que eu pudesse evitar, meus olhos se encheram de lágrimas. E nem tentei me controlar, pois era tudo forte demais, muita coisa acontecendo junto. Eu só pude olhar para meus pais, chocado, tocado, abalado.

Niño

Minha mãe veio perto e me abraçou. Sussurrou:

— Vai dar tudo certo. Ela te ama. Peça perdão e não repita mais seu erro. Mas não fique assim.

— Vou falar com ela — minha voz saiu rouca.

— Vai, mas quando estiver melhor.

Ela se afastou o suficiente para me fitar nos olhos com ternura. Passou as mãos por meu rosto, como fazia quando eu era pequeno e me machucava.

— Ao menos ligue primeiro para ela. Tente. Se ela não atender, eu e seu pai vamos com você para onde quiser. Está bem?

Acenei com a cabeça e peguei meu celular. Minha mãe foi para junto do meu pai e deram-se os braços.

Olhei para eles por um momento e me senti tão amado, tão amado, que tive vergonha das minhas fraquezas. Mesmo com minhas burrices e inseguranças, tanto eles quanto Marcella me davam provas de amor.

O celular dela tocou várias vezes. E quando pensei que ia cair na caixa postal, ela atendeu.

 

 

Marcella

 

 

Eu bem que pensei em ignorar. Simplesmente mostrar como eu me sentia mantendo-o longe de mim, dando um gelo por tempo indeterminado, até que entendesse como tinha me magoado e sido injusto.

Mas enquanto eu olhava para seu nome, pensava nele e, mais do que tudo, sentia a sua falta. Naquele momento Ramon era tudo que eu precisava.

Não pensei em raiva, orgulho ou punição. Apenas nele, em todo amor que despertava em mim. Atendi:

— Oi.

— Marcella — sua voz estava rouca, carregada. — Eu fui um idiota, babaca, burro! Agi como um tolo, levado pelo ciúme sem cabimento. Me perdoe, amor. Por favor, se puder, esqueça tudo que falei.

“Amor”, esta foi a palavra que martelou em mim. Era a primeira vez que me chamava assim. Emoções fortes me abalaram e fechei os olhos por um momento, embargada.

— Fui injusto demais. Confio em você, acredito em você. Mas agi como se não o fizesse. Onde você está? Quero ficar ao seu lado. Posso não andar, mas passo por cima com minha cadeira de quem for que magoe você! Me deixe conversar, enfrentar tudo isso com você, Marcella.

Não dava para negar a intensidade cheia de sentimentos em sua voz, seu desespero claro. Abri os olhos, fitei a rua, alguém buzinou atrás de mim. Joguei para o acostamento, tentando recuperar meu equilíbrio, decidir o que fazer.

— Fale comigo — Ramon pediu baixinho.

— Você me magoou — murmurei.

— Eu sei. Vou passar o resto da vida recompensando você por isso. Vou provar que para mim você é mais importante que tudo. Me diga onde está.

— Na rua.

— Que rua?

— Ramon, você fez um procedimento ontem. Sei que está com dor.

— Isso não importa. Estou bem. Me fala o nome da rua.

— Precisamos conversar com calma e ainda tenho umas coisas para resolver.

— Eu resolvo com você.

— Não. Depois conversaremos.

— Marcella, não faz isso comigo — havia agonia em sua voz baixa. — Pode me condenar, brigar comigo, gritar. Mas me deixe ver você, reverter a merda que eu fiz!

Respirei fundo. Só de falar com ele, eu já me sentia melhor, tinha certeza de que com o tempo tudo se ajeitaria. Claro que queria ter uma conversa séria e definitiva, colocar os pontos nos “is”. Mas naquele momento, eu sabia que Ramon não estava bem, que precisava de repouso. E eu ainda me sentia magoada com ele.

— O que vai fazer agora?

— Tenho uma entrevista para dar.

— Quero estar com você.

— Não.

— Por favor. Se não me falar onde está, vou sair pela cidade atrás de você.

Dei um sorriso só para mim mesma e sacudi a cabeça, como se pudesse me ver.

— Tenho uma coisa importante para te dizer, Marcella. Além de tantas outras e do pedido de desculpas. Não posso esperar.

— Diga.

— Tem que ser pessoalmente.

De repente, tudo o que mais precisava era me encorujar nos braços de Ramon e esquecer o mundo. A raiva foi esvaindo, suas palavras agressivas daquela manhã deixando de ser tão duras diante das novas. Não era aceitação dos erros dele, era perdão, acreditando que não se repetiriam. Pois uma coisa ele saberia: eu não era de aturar nada que não queria. Dava a chance necessária, nada mais do que isso.

— Tudo bem. Vamos fazer assim. Fique bem aí, tome seus remédios, se cuide. Quando eu acabar a entrevista, vou ao seu apartamento e conversaremos.

— Não. Não vou te deixar sozinha. Desde o início era para estar ao seu lado.

— Era mesmo. Mas isso não quer dizer que não teremos oportunidade. Além do mais, estou bem e sou forte. Já fiz o que tinha que fazer, denunciei Benjamin na delegacia.

— Fez isso?

— Sim. Agora só falta a entrevista. Mas tem uma condição, Ramon.

— Qual?

— Só vou aí encontrar você daqui a pouco se me prometer que vai se cuidar. Que estará bem para a gente conversar.

— Marcella … você não existe. Como pode se preocupar ainda comigo, depois de tudo que fiz?

— Você é humano. Tinha começado a imaginar que era um santo, talvez um anjo caído na Terra que encontrei sem querer. Mas tem seus defeitos também.

Ramon deu uma risada baixa, depois falou aliviado:

— Se eu te magoar de novo, pode acabar comigo.

— Não pensarei duas vezes.

— Tem certeza que não quer que eu esteja com você? Não vou dirigir, meus pais estão aqui e me levam.

— Tenho. Prefiro fazer isso sozinha. Vai ser rápido. — Perguntei cautelosa: — Sua mãe está muito brava?

— Muito!

— Ai …

— Comigo. Só faltou me dar uns tapas, o que seria bem merecido. E está muito preocupada com você. Todos nós estamos. Vou te encontrar.

— Você é teimoso, hein? Me prometa que vai ficar bem. Aí vou para seu apartamento.

— Já estou bem, amor. Só falar com você já me aliviou. Pensei que nunca mais fosse atender uma ligação minha.

— Era o que você merecia. Sorte sua eu não estar rancorosa hoje.

Fiquei pensando tudo que Ramon queria falar comigo, mas me acalmei.

— Preciso desligar, Ramon.

— Você vem pra cá mesmo?

— Vou.

— Espero você.

— Tá.

— Marcella, eu … — parecia querer desabafar muito mais. Se conteve: — Não demore. E se precisar, me ligue. Vou aonde estiver.

— Pode deixar. Se cuide.

— Se cuide você. Beijos, amor.

— Beijos.

Desliguei e me recostei no banco, aliviada, com uma vontade esquisita de chorar. Eu o amava tanto que até doía. Saber que estava arrependido, que queria acertar tudo e se redimir, me aliviava.

Naquele momento, Leone me ligou. Havia duas pessoas de um grande site de notícias, prontos para me entrevistarem. Falei que me encontrassem ali no Leblon, em um dos quatro mirantes do Parque Penhasco Dois Irmãos. Daria minha entrevista em alto estilo, em um dos lugares mais lindos do Rio de Janeiro.

Antes de ligar o carro, peguei meu nécessaire com maquiagem que deixava no porta-malas e me ajeitei, caprichando rímel nos cílios longos e batom na boca vermelha. Penteei meus cabelos até brilharem sedosos e soltos. Olhei-me com admiração e decisão. Somente então me dirigi para o local do encontro.

O Parque ficava ao final da praia do Leblon, antes da subida da Av. Niemeyer, e não era tão conhecido. Por isso não ficava muito cheio. A vista era um camarote para as praias de Ipanema e do Leblon, um escândalo de tão lindo! E o melhor é que lá o acesso era fácil para idosos, cadeirantes, pessoas com mais dificuldades de locomoção. Eu tinha que dar um passeio ali com Ramon, qualquer dia.

Parei meu carro no estacionamento do primeiro mirante, Mirante Orla. Realmente não estava cheio e saí, adorando o ar gostoso que me recebeu ali do alto, cercado por árvores e uma vista magnífica da orla de Ipanema e Leblon. Em meio àquela área verde, se encontrava um dos monumentos em memória às vítimas do voo AF447 da AirFrance, de um acidente que tinha ocorrido em 2009. Uma placa de vidro com gaivotas representava os 228 homens, mulheres e crianças desaparecidos no acidente.

Caminhei um pouco mais, desci uma escada e cheguei à uma área onde a vista continuava espetacular e dava para ver também o oceano e as ilhas do arquipélago das Cagarras, perto de Ipanema, formada por ilhas e rochedos.

Sentei em uma pequena mureta, deixando o vento gostoso bater em mim, sentindo paz e tranquilidade. Ali em cima, com tanta beleza a minha volta, tendo visto a placa com os falecidos do voo, me dei conta de como minha vida era boa e rica. Aquele episódio de manhã, com as fotos e a discussão com Ramon, tinha parecido a pior coisa do mundo. Mas não era.

Tristeza era perder familiares de modo abrupto. Era ter sua vida arrancada de você sem poder aproveitá-la o quanto era devido. Problemas todo mundo tinha, mas se dava para contorná-los, resolvê-los, por que apelar para o desespero?

Bem mais calma e centrada, apenas respirei o ar e olhei a praia lá embaixo. Fiquei ali por vários minutos, até o casal que me entrevistaria chegar e se apresentar. Sebastião era o câmera e Karina a repórter. Nos apresentamos e conversamos enquanto tudo era ajeitado. Por fim, fomos acomodadas lado a lado como em uma conversa amena e despretensiosa, para começar.

Algumas pessoas que chegavam ou passavam para seguir até os outros mirantes e trilhas, olhavam curiosas. Algumas paravam para ver e ouvir.

Finalmente a gravação foi feita. Karina se apresentou, simpática, dizendo o nome do canal e do programa. Depois virou para mim e falou:

— Estamos aqui com a estrela das novelas brasileiras, do teatro e do cinema, a atriz Marcella Galvão. Como sabem, o celular do ex-namorado dela foi roubado e as fotos de ambos vazaram na internet. Ele é o ator Benjamin Barcelos. Marcella, o que você tem a declarar sobre isso?

— Oi, Karina. É um prazer estar aqui com vocês — Sorri para ela e depois para a câmera, muito tranquila e à vontade. — Na verdade, não vejo tanta importância assim no fato. O que há ali de novo para ver? Um homem, uma mulher, momentos passados … nem consigo entender como isso chama tanto a atenção da mídia e das pessoas. Como se no Brasil não tivessem tantos assuntos mais urgentes para serem tratados. A política corrupta e impune que o diga.

— É verdade. Acho que todos são levados pela curiosidade, afinal vocês são lindos e famosos. Mas já que estamos aqui, posso fazer uma pergunta?

— Tantas quanto quiser.

— Você sabia dessas fotos?

— Tirando a de nudez, sabia sim. No entanto, foram tiradas três anos atrás, quando me relacionei com o ator. Como para mim é uma página totalmente virada, achei que ele tivesse excluído. Fiquei surpresa por ainda estarem no celular dele que foi … roubado.

Sorri e disse a última palavra com a dose certa de ironia, o que chamou a atenção da entrevistadora:

— Acha que foi de propósito?

— Quem sou eu para dizer? Posso garantir que não preciso de propaganda extra, mas não posso afirmar o mesmo da parte dele. Quem sabe do que as pessoas precisam, não é?

— Sim! — Karina sorriu. — Isso quer dizer que o casal não retomou o affaire? Mesmo trabalhando novamente juntos?

— Na verdade trabalhamos no mesmo filme, mas não juntos. E não há nenhuma relação entre nós.  Tudo que viram é passado, enterrado para mim.

— Mas ficou abalada com a exposição?

— Estou indiferente — menti, mas dei de ombros, de modo convincente. Queria muito que Benjamin entendesse que seu objetivo não foi alcançado. — Amanhã ninguém lembrará mais disso. E posso garantir que permanecemos na fama ou no reconhecimento quando temos talento verdadeiro, respeito pelo nosso trabalho e público, dedicação. Por isso não me preocupo muito. Mas falo somente por mim.

— E se não há nada entre você e Benjamin, pode nos dizer se seu coração está ocupado? Vimos comentários de que estaria namorando um violoncelista. É verdade?

— Isso é a pura verdade. Meu coração está completamente preenchido por Ramon Martinez, um homem de verdade, sem subterfúgio, sem necessidade de mídia para impressionar. Ele é admirável.

— Hum … está apaixonada?

— Estou. Muito.

Falei com toda sinceridade e Karina suspirou.

Fez mais perguntas e a todas tratei com calma, deixando claro que eu não tinha mais nada com Benjamin, que as fotos não me perturbaram e apenas deixando no ar que talvez ele precisasse de foco e de mídia para chamar atenção, o que não era o meu caso. Também não demonstrei vergonha de nada.

Antes de terminar, ela ainda perguntou:

— Desculpe tocar no assunto. Mas seu namoro com Ramon gerou certa polêmica, por ele ser cadeirante. Isso de algum modo atrapalha a relação de vocês?

— Em nada. Ramon é um homem como outro qualquer. Que me completa de todas as formas, me faz feliz. Eu não podia ter conhecido pessoa melhor. O fato dele ser cadeirante é irrelevante. Não é como tantos homens por aí, sem caráter. Isso sim me incomodaria bastante.

— Obrigada, Marcella.

Karina fez as considerações finais, se despediu e fiz o mesmo. Quando acabou a gravação, perguntei quando iria ao ar.

— Assim que fizermos a edição. Hoje mesmo.

— Ótimo!

Eu agradeci, conversamos um pouco mais e ela garantiu que me mandaria o link da entrevista. Entrei em meu carro e saí do Mirante, satisfeita comigo mesma.

O dia tinha começado com uma bomba e uma discussão. Ia terminar diferente.

Benjamin saberia que suas armas falharam. E que se quisesse se meter comigo, teria represália.

Com Ramon eu me entenderia logo. Estava indo encontrar com ele.

Mas o melhor de tudo, eu estava em paz comigo mesma.

O dia estava lindo!

 

Oi de novo! rsrs Olha o Ramon novinho:

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Showing 6 comments
  • Rosana
    Responder

    Lindo! e arrasando como sempre, melhor livro de todos os tempos (tirando ferida; pois Theo é meu crush)

  • Socorro Waldeny
    Responder

    obrigada Nana!!! Mesmo com o pimpolho doente veio nos socorrer!!!! Amei o capítulo, altamente emocionante!!!! Ramon novo é sexy!!!!

  • Kellyn
    Responder

    Amei o capítulo Nana, vi aí que seu filho está doente, melhoras, estou apaixonada por está estória. Parabéns

  • Jessica
    Responder

    Muito obrigada nana que capítulo maravilhoso <3

  • Cristina Tavares
    Responder

    O que dizer! Lindo lindo amei tanto que acho que vou gritar

  • Simone Mendes Pereira
    Responder

    Esse Ramon é um espetáculo! Capítulo lindo, emocionante, chorei , me deu dó da Marcella, mas amo as atitudes dela e Ramon gente ele é lindo , por dentro por fora , mais novo , mais velho é td de bom!!! E a família dele cada vez to mais apaixonada , é uma delícia ler, Amando , Nana vc sempre arrasa , obrigada por postar aqui pra gente , amei !

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